{"id":7989,"date":"2017-09-18T09:27:48","date_gmt":"2017-09-18T09:27:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.revistabinter.com\/?p=7989\/"},"modified":"2024-01-25T09:23:02","modified_gmt":"2024-01-25T09:23:02","slug":"mario-lucio-sousa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/2017\/09\/18\/mario-lucio-sousa\/","title":{"rendered":"M\u00e1rio L\u00facio Sousa"},"content":{"rendered":"<p><strong>M\u00e1rio L\u00facio Sousa est\u00e1 de volta aos discos com Funanight, ap\u00f3s cinco anos de interregno em que foi ministro da Cultura. O \u00e1lbum, que \u00e9 uma homenagem ao funan\u00e1, um dos mais originais g\u00e9neros musicais de Cabo Verde, tra\u00e7a o percurso do estilo, desde a origem, quando era cantado em coro nos campos, \u00e0 atualidade, em que inunda as discotecas sob a forma de Kotxi Po. Nesta entrevista \u00e0 NT, o cantor e compositor, que apresenta o disco na Europa e na Am\u00e9rica neste ver\u00e3o, fala do seu conceito e da sua interpreta\u00e7\u00e3o do funan\u00e1, mostrando-se entretanto pouco preocupado com o sucesso, ou n\u00e3o, que o disco poder\u00e1 ter junto do grande p\u00fablico. Afinal, ser inovador implica estar \u00e2 frente no tempo. <\/strong><\/p>\n<p><strong>&#8211; Por cinco anos (2011-2016) foi ministro da Cultura. Durante esse per\u00edodo n\u00e3o gravou nenhum disco. Tinha saudades de estar em est\u00fadio com os seus pares a ensaiar e a gravar? <\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Sim, muita saudade, embora eu, quando aceitei integrar o Governo, tenha feito uma mentaliza\u00e7\u00e3o que cumpri, a saber, n\u00e3o fazer concertos, suspender toda a minha agenda de concertos e suspender tamb\u00e9m toda a minha agenda como escritor, nomeadamente lan\u00e7amento de livros, etc. Entretanto, nesse per\u00edodo, ganhei pr\u00e9mios liter\u00e1rios e fui participar nas cerim\u00f3nias de entrega. Ganhei tamb\u00e9m pr\u00e9mios discogr\u00e1ficos e esporadicamente participei nesses eventos. Deixei a vida art\u00edstica suspensa, isto por uma quest\u00e3o de \u00e9tica, mas tamb\u00e9m por eu me conhecer bem. Eu escrevo e componho compulsivamente e quando come\u00e7o um livro ou um disco, n\u00e3o existe mais nada no mundo.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7991\" src=\"http:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/M\u00e1rio-L\u00facio-Sousa-2.jpg\" alt=\"\" width=\"964\" height=\"642\" srcset=\"https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/M\u00e1rio-L\u00facio-Sousa-2.jpg 964w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/M\u00e1rio-L\u00facio-Sousa-2-361x240.jpg 361w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/M\u00e1rio-L\u00facio-Sousa-2-750x499.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 964px) 100vw, 964px\" \/><\/p>\n<p><strong>&#8211; Abstrai-se completamente, de tudo?<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Sim, \u00e9 uma m\u00e9dia de 16 horas por dia a escrever e n\u00e3o tenho vontade de fazer mais nada. E quando entro na <em>\u201conda\u201d<\/em> de que j\u00e1 comecei a gravar um disco tamb\u00e9m para tudo. S\u00f3 o universo gira. No caso deste disco, estive seis meses gravando, viajando \u2026 Ent\u00e3o, eu sabia que isso poderia tirar-me o foco da miss\u00e3o p\u00fablica a que eu estava cometido naquele momento. Assim, durante quatro anos n\u00e3o senti saudades, mas quando o mandato estava quase a terminar j\u00e1 contava os dias para voltar ao meu mundo das artes e ent\u00e3o come\u00e7ou a bater uma saudade dos amigos, dos est\u00fadios, das tourn\u00e9es, dos camarins, dos palcos, do p\u00fablico, de tudo. Mas felizmente j\u00e1 estou c\u00e1.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Diria que gravou Funanight num tempo recorde ou para si \u00e9<\/strong> <strong>costume gravar um disco em seis meses? <\/strong><\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, acho que \u00e9 o tempo mais longo que j\u00e1 utilizei para gravar um disco. Mesmo no caso do disco <em>Kriol<\/em>, que \u00e9 um disco que eu gravei em Cuba, na Martinica, em Lisboa, Paris, Bamako, Dakar, Rio de Janeiro, Praia, Mindelo, n\u00e3o levei tanto tempo, e eram viagens mais longas, porque havia um filme tamb\u00e9m a ser feito sobre o \u00e1lbum. Mas este disco, Funanight, \u00e9 o mais longo. Estou nisto desde Setembro\/Outubro.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7992\" src=\"http:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/M\u00e1rio-L\u00facio-Sousa-3.jpg\" alt=\"\" width=\"960\" height=\"642\" srcset=\"https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/M\u00e1rio-L\u00facio-Sousa-3.jpg 960w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/M\u00e1rio-L\u00facio-Sousa-3-361x242.jpg 361w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/M\u00e1rio-L\u00facio-Sousa-3-750x502.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/p>\n<p><strong>&#8211; Foi de prop\u00f3sito que tomou este tempo todo? <\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Sim. \u00c9 um disco sobre o funan\u00e1 e implicava v\u00e1rias coisas, n\u00e3o eram s\u00f3 composi\u00e7\u00f5es minhas e tamb\u00e9m n\u00e3o era s\u00f3 sobre a minha forma de compor. Eu tinha o compromisso e a responsabilidade de fazer como os outros fizeram antes de mim, que \u00e9 compreender o esp\u00edrito do funan\u00e1. Tem uma forma de cantar, uma tem\u00e1tica de escrita, uma forma de arranjos, de abordar os instrumentos e tem tamb\u00e9m uma est\u00e9tica pr\u00f3pria. Tudo isso levava a que eu gravasse, regravasse, voltasse a gravar. \u00c0s vezes ficava bonito, mas n\u00e3o ficava com o esp\u00edrito, pois era preciso um compromisso entre a beleza e o esp\u00edrito da coisa. Por isso \u00e9 que levou tanto tempo, e tamb\u00e9m porque quis trabalhar com os melhores, tanto em Cabo Verde como fora, porque o disco dependia muito da alma e da compet\u00eancia de cada um. Resolvi fazer a mistura em Paris, no est\u00fadio A vous <strong>*NT1<\/strong>, onde o grupo Simentera gravou o primeiro disco e havia um engenheiro de som muito bom, eu quis fazer a mistura com ele e fizemos. E havia outro engenheiro de som muito jovem, que montou o meu est\u00fadio, e eu queria que ele fizesse algumas misturas; havia outras misturas que eu queria fazer no Rio de Janeiro, com outro engenheiro de som que trabalhou comigo quando gravei com Milton Nascimento e com Gilberto Gil. H\u00e1 m\u00fasicas que eu gravei na \u00c1frica do Sul, porque queria que essa sonoridade, essa cad\u00eancia, essa forma de sentir a m\u00fasica na pele e no ventre trespassasse para disco. Gravei os metais e os sopros todos em Cuba, porque sabia que s\u00f3 os cubanos podia captar essa ess\u00eancia do funan\u00e1 fora e fazer esse trabalho, para al\u00e9m dos cabo-verdianos, mas eu queria esse toque crioulo de um outro lugar. Esse percurso acabou resultando realmente no que queria. Bem, eu estava sem pressa.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Falou no esp\u00edrito do funan\u00e1. Qual \u00e9 o esp\u00edrito do funan\u00e1? <\/strong><\/p>\n<p>&#8211; O funan\u00e1 \u00e9 muito sincr\u00e9tico. A gente ouve um funan\u00e1 ali na esquina, parece repetitivo, um acorde\u00e3o diat\u00f3nico, tr\u00eas\/quatro acordes e tal. O que acontece \u00e9 que na forma de cantar o funan\u00e1 tem muito mist\u00e9rio, o lamento, o glissando, a melopeia est\u00e1 a dizer mais do que a gente escuta. Os gritos libert\u00e1rios est\u00e3o a dizer mais do que a gente escuta. Quando se dan\u00e7a o funan\u00e1, normalmente aos pares, h\u00e1 aquele momento de soltura, de bater o p\u00e9 no ch\u00e3o. O funan\u00e1 tamb\u00e9m tem o seu c\u00f3digo, sobretudo nas palavras. \u00c9 poss\u00edvel fazer um funan\u00e1 completo e n\u00e3o usar uma frase, mas s\u00f3 excertos de frases, n\u00e3o usar verbos mas substantivos. Por exemplo: \u201cSodadi de tal lugar\u201d, \u201cSodadi di fulano\u201d, \u201cAh, fulano\u201d. Isto tem uma energia e um esp\u00edrito que era preciso captar e que os grupos dos anos 80 e 90 captaram t\u00e3o bem, quando deveria ser o toque dos instrumentos eletr\u00f3nicos a expressar esse esp\u00edrito. O funan\u00e1 apresenta tr\u00eas caracter\u00edsticas fundamentais: tem um espirito libert\u00e1rio, no sentido de que quer expressar toda a \u00e2nsia de liberdade. Mas o funan\u00e1 tamb\u00e9m tem um esp\u00edrito libertador, provoca, tanto \u00e9 que foi o primeiro g\u00e9nero em que um homem e uma mulher dan\u00e7aram nariz com nariz, umbigo com umbigo e <em>otras cositas mas. <\/em>Foi uma liberta\u00e7\u00e3o e por isso o funan\u00e1 \u00e9 tamb\u00e9m muito libertino, a forma de dan\u00e7ar, aquela evoca\u00e7\u00e3o \u00e0 sexualidade permanente, \u00e9 uma forma de liberdade, de se poder entrar em contacto. Assim, basicamente, estou a falar do seu esp\u00edrito e da sua compreens\u00e3o social, \u00e9 isto ent\u00e3o que se leva \u00e0 m\u00fasica para que esta comunique, seja um ve\u00edculo, mas primeiro \u00e9 preciso captar o esp\u00edrito para saber que tipo de m\u00fasica fazer.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Disse que os artistas dos anos 80 e 90 souberam muito bem transmitir esse esp\u00edrito do funan\u00e1. E o funan\u00e1 de hoje, continua fiel ao esp\u00edrito original do g\u00e9nero? <\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Atualmente, o funan\u00e1 est\u00e1 a sofrer um processo, h\u00e1 a renova\u00e7\u00e3o dos grupos dos anos 80, como o Bulimundo, o Fina\u00e7on, e outros anteriores, como Os Tubar\u00f5es, e isso vem trazer aquele esp\u00edrito que estamos a precisar de ouvir e continuar a cultivar. O funan\u00e1 est\u00e1 sempre presente, mas o funan\u00e1 tem a for\u00e7a da renova\u00e7\u00e3o, como foi o caso de os Rabelados, dos Livity, dos Splash. Mas o funan\u00e1 ainda tem uma coisa permanente, que \u00e9 a sua mistura com outros g\u00e9neros de m\u00fasica: com o reggae, com o rap, com o rock, e neste disco meu h\u00e1 um momento de heavy metal para interpretar uma m\u00fasica que os Finason e Zeca di Nha Reinalda gravaram h\u00e1 muitos anos atr\u00e1s, em 1985, j\u00e1 nessa altura, nessa \u00e9poca, havia o espirito de heavy metal no funan\u00e1. E os Ferro Gaita. Se at\u00e9 o nascimento dos Ferro Gaita o acorde\u00e3o, que \u00e9 o principal instrumento do funan\u00e1, tinha sido relegado a instrumento rural, apenas como roots, instrumento origem, mas falou-se de levar isso aos instrumentos aos instrumentos eletr\u00f3nicos, de sal\u00e3o<strong>*NT2<\/strong>. Os Ferro Gaita disseram n\u00e3o, vamos trazer o funan\u00e1 para a frente do palco, trazer a gaita para a frente do palco. Foi pois uma transforma\u00e7\u00e3o, uma nova sonoridade para um instrumento que \u00e9 quase uma orquestra, e isso deu um grande impulso que ainda hoje vive. Mas surgiu um movimento novo no acorde\u00e3o, na gaita, que mostra o esp\u00edrito e que abre um novo caminho no funan\u00e1, que \u00e9 o Kotxi po. O Kotxi po \u00e9 a m\u00fasica que faz furor nas periferias, tanto na di\u00e1spora como aqui. Mas, qual \u00e9 a grande revolu\u00e7\u00e3o do Kotxi Po? \u00c9 que, se at\u00e9 ontem todos os instrumentos imitaram a gaita, o Kotxi Po pega da gaita e imita outros instrumentos. Portanto, inverteu o papel da gaita, e isso cria novos acordeonistas, novos virtuosos, novas toadas, novas cad\u00eancias e abre novas perspetivas para o funan\u00e1. E \u00e9 engra\u00e7ado que, em pleno s\u00e9culo XXI, o funan\u00e1 por si s\u00f3 resolveu fazer a sua m\u00fasica eletr\u00f3nica mas com o seu pr\u00f3prio instrumento de origem. Ent\u00e3o, o Kotxi Po \u00e9 um loop permanente, mas feito com o seu pr\u00f3prio instrumento de origem. Ent\u00e3o, o funan\u00e1 est\u00e1 vivo e com uma grande m\u00fasica, primeiro como m\u00fasica rural e agora como m\u00fasica urbana.<\/p>\n<p><strong>&#8211; No texto que escreveu sobre este seu novo disco afirma que \u201cbebeu\u201d de todos. O que h\u00e1 ent\u00e3o nesse disco de seu, de original, de \u00fanico que traz para o funan\u00e1? <\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Bom, eu acho que o mais original que um criador pode ter \u00e9 ter de todos e ser diferente, e ser si pr\u00f3prio. Todo o meu percurso, eu bebo de todos, mas \u00e9 o meu estilo, a minha forma. Este disco \u00e9 o meu funan\u00e1, a minha vis\u00e3o, a minha homenagem ao funan\u00e1 e eu fico contente e surpreso pelas cr\u00edticas de pessoas entendidas na mat\u00e9ria. Todos usam a mesma express\u00e3o: \u00e9 inovador, \u00e9 algo novo no panorama da m\u00fasica cabo-verdiana, e isto a utilizar as palavras, por exemplo, de Vasco Martins. E isso mostra que, sem abandonar as minhas ra\u00edzes, as minhas origens, consigo ainda nesta \u00e9poca trazer um f\u00f4lego novo ao funan\u00e1. Portanto, o que \u00e9 meu \u00e9 de todos, e acho que \u00e9 nisto que est\u00e1 a novidade: n\u00e3o repetir e conseguir, todo o tempo, ter um olhar novo sobre as coisas velhas.<\/p>\n<p><strong>&#8211; E o funan\u00e1 que traz neste disco \u00e9 um funan\u00e1 tamb\u00e9m para dan\u00e7ar? <\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Ah, o disco chama-se Funanight, e o prop\u00f3sito \u00e9 exatamente esse, porque o funan\u00e1 \u00e9 uma m\u00fasica para dan\u00e7ar, mas tamb\u00e9m \u00e9 uma m\u00fasica para se escutar, pois \u00e9 uma m\u00fasica de lamento. O funan\u00e1 acompanhou os primeiros homens livres, acompanhou a aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, surgiu nessa altura, e acompanhou a ida dos cabo-verdianos para as ro\u00e7as de S. Tom\u00e9. O funan\u00e1 acompanhou a independ\u00eancia de Cabo Verde, acompanhou o nascimento da democracia pluripartid\u00e1ria, s\u00e3o grandes momentos. E hoje o funan\u00e1 est\u00e1 a acompanhar as novas tecnologias. Ent\u00e3o, tudo isso indica for\u00e7osamente que temos de conhecer todo este percurso para a gente fazer um trabalho de qualidade.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Se a consagra\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 \u00f3bvia, o reconhecimento internacional nem tanto. O mundo conhece o funan\u00e1 na mesma medida em que conhece j\u00e1 a morna? <\/strong><\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 uma parte do mundo que j\u00e1 conhece e o funan\u00e1 tem muito prest\u00edgio fora de Cabo Verde. Eu espero contribuir para que se descubra ainda mais o funan\u00e1 porque fa\u00e7o agora um funan\u00e1 que bebe de todos os que me antecederam para um outro p\u00fablico, para todos e mais um, e para quem ainda n\u00e3o tenha ouvido. E com todos os que fazem o funan\u00e1 podemos criar um grande movimento mundial, porque j\u00e1 existe esta vontade, \u00e9 uma m\u00fasica muito forte, contagiante, com uma grande energia. Mas h\u00e1 apostas e tenho propostas de v\u00e1rias editoras internacionais que querem retomar e lan\u00e7ar este ritmo como um fen\u00f3meno no mundo todo, a par da morna. Isso \u00e9 importante para a m\u00fasica de Cabo Verde, que tenha mais g\u00e9neros conhecidos internacionalmente. A morna \u00e9 conhecida l\u00e1 fora sobretudo como m\u00fasica de escuta, de deixar-se levar mais pela via da contempla\u00e7\u00e3o, o funan\u00e1 vem mais pela via de \u201cningu\u00e9m pode ficar parado\u201d.<\/p>\n<p><strong>&#8211; E quando \u00e9 que vai levar esse seu funan\u00e1 para fora de Cabo Verde? <\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Quando sai um disco normalmente trabalhamos para o ano que vem, mas eu j\u00e1 fiz concertos deste disco l\u00e1 fora, no Brasil, para testar como ia funcionar e foi um sucesso tremendo. J\u00e1 este ver\u00e3o vamos estar em tourn\u00e9e na Europa e na Am\u00e9rica para mostrar o funan\u00e1. Mas uma grande saga de tourn\u00e9e s\u00f3 em 2018.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Achei curioso o facto da faixa \u201cTema de Minis di Funan\u00e1\u201d ter tr\u00eas vers\u00f5es. Porqu\u00ea? <\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Porque o disco \u00e9 uma hist\u00f3ria. O disco come\u00e7a com as crian\u00e7as a brincar. Aquelas palmas s\u00e3o reais. Foi um acontecimento. Eu vi umas crian\u00e7as a brincarem em Hong Kong, a brincar \u00e0s palmas, fizeram um ritmo e eu cantei sobre esse ritmo. Algu\u00e9m gravou e depois mandou-me e era um funan\u00e1: conta a hist\u00f3ria de como surgiu, como foi cantado durante muito tempo s\u00f3 com vozes, no campo, quando os escravos ou os seus descendentes n\u00e3o tinham instrumentos musicais mas tinham essa melodia. O disco come\u00e7a assim, at\u00e9 que esse tema se transforma em funan\u00e1, com percuss\u00e3o, ferro, tudo! Ent\u00e3o, h\u00e1 uma segunda vers\u00e3o, a primeira \u00e9 s\u00f3 vozes, e logo na segunda, que \u00e9 a vers\u00e3o que divulgamos para a comunica\u00e7\u00e3o social, j\u00e1 \u00e9 com o funan\u00e1. E h\u00e1 uma terceira vers\u00e3o. Portanto a primeira chama-se \u201cOnti\u201d, a segunda \u00e9 \u201cFunan\u00e1\u201d e a terceira chama-se \u201cHoji\u201d, e \u00e9 um remix, um funan\u00e1-house-afro-pop para as discotecas, que \u00e9 como hoje em dia os DJs preparam o funan\u00e1 para a noite, a night, porque a nova gera\u00e7\u00e3o tem um outro beat, e eles precisam de um outro beat, que s\u00e3o frequ\u00eancias mais graves, o exagero nos agudos e loops repetitivos que levam ao transe. Por isso fizemos essa vers\u00e3o para a nova gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-7993\" src=\"http:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/M\u00e1rio-L\u00facio-Sousa-4.jpg\" alt=\"\" width=\"962\" height=\"642\" srcset=\"https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/M\u00e1rio-L\u00facio-Sousa-4.jpg 962w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/M\u00e1rio-L\u00facio-Sousa-4-361x242.jpg 361w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2017\/09\/M\u00e1rio-L\u00facio-Sousa-4-750x501.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 962px) 100vw, 962px\" \/><\/p>\n<p><strong>&#8211; Disse ainda h\u00e1 pouco que quis gravar e gravou com os melhores. Quem s\u00e3o esses melhores? <\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Quando falo nos melhores n\u00e3o quer dizer todos os melhores estejam l\u00e1 dentro. Muitos n\u00e3o consegui, muitos n\u00e3o est\u00e3o, e isso \u00e9 muito importante de se dizer. Mas quando falo nos melhores estou a falar de seres humanos, de gente que entende e consegue transpor para a m\u00fasica aquilo que queremos, porque \u00e9 necess\u00e1ria tamb\u00e9m alguma b\u00ean\u00e7\u00e3o para se conseguir fazer certas coisas. Ent\u00e3o, a sorte \u00e9 que tenho amigos em todo o s\u00edtio e no Brasil os amigos chamam os amigos, e acab\u00e1mos chamando os melhores m\u00fasicos brasileiros para participar e isso \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o para mim. Em Cuba, onde gravei com o Pablo Milanez, que chamou os m\u00fasicos que habitualmente tocam com ele, o que facilita tudo, porque v\u00eam com uma vontade, uma luz, p\u00f5em o melhor que sabem no disco e a m\u00fasica de Cabo Verde sai a ganhar com isto. E em Cabo Verde chamei os meus colegas do conjunto Abel Djassi que est\u00e3o c\u00e1: o Jorge Pimpa na bateria, o Ad\u00e3o Brito no baixo, o Totinho no saxofone. Nascemos juntos, crescemos juntos e 30 anos depois voltamos a gravar juntos e com a qualidade que esses m\u00fasicos t\u00eam. N\u00e3o s\u00e3o melhores que virtuosos nem melhores que ningu\u00e9m, mas coube-me a sorte de ser recebido por esses m\u00fasicos.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Quem s\u00e3o os compositores de Funanight; autores de diferentes gera\u00e7\u00f5es? <\/strong><\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o. Porque o disco conta a hist\u00f3ria do funan\u00e1, mas mais na base do ritmo e do esp\u00edrito como era percebido o funan\u00e1 nos anos 80, como era percebido no s\u00e9culo XIX, como era percebido nos anos 90, como foi percebido pela di\u00e1spora, pela nova gera\u00e7\u00e3o. Assim, Funanight traz quase s\u00f3 composi\u00e7\u00f5es minhas, exceto um: retomo \u201cPomba\u201d, do Cod\u00e9 di Dona, e retomo \u201cNandinha\u201d, que \u00e9 uma m\u00fasica que o Fina\u00e7on gravou nos anos 80 e que o Zeca di Nha Reinalda canta em dueto comigo no disco. Canto tamb\u00e9m uma m\u00fasica com o meu irm\u00e3o Princezito, uma bela pe\u00e7a de funan\u00e1, e traduzo para o crioulo uma m\u00fasica do Bob Marley, por causa do esp\u00edrito que existe, da parecen\u00e7a entre o funan\u00e1 e o reggae: a languidez, o espa\u00e7o para a voz, o espa\u00e7o para os instrumentos, a batida do bombo com a caixa, a liberta\u00e7\u00e3o crioula na m\u00fasica. O reggae libertou os crioulos das Cara\u00edbas, para al\u00e9m de outras formas, o ska e outras m\u00fasicas. Mas acho uma semelhan\u00e7a enorme, quanto \u00e0 forma de tocar e abordar a m\u00fasica, entre o funan\u00e1 e o reggae. E eu fui procurar Bob Marley e um dos temas simb\u00f3licos da sua filosofia e cantei-o pela primeira vez numa l\u00edngua que \u00e9 dele, mas que ele n\u00e3o fala, que \u00e9 o crioulo. Na Jamaica existe o pidjim, que \u00e9 um crioulo, mas ele nunca cantou em pidjim, cantou mais em ingl\u00eas, por v\u00e1rias raz\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>&#8211; Referiu-se \u00e0s cr\u00edticas que j\u00e1 foram feitas ao disco, todas positivas, e que classificam Funanight como um disco inovador. Ora, n\u00f3s sabemos que os inovadores nem sempre, ou quase nunca, s\u00e3o bem recebidos pelas sociedades que lhes s\u00e3o contempor\u00e2neas. Tem alguma expetativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 forma como os cabo-verdianos est\u00e3o ou ir\u00e3o receber este seu novo disco<\/strong>?<\/p>\n<p>&#8211; Esse disco tem um segredo: \u00e9 muito popular. E quando o povo se apodera de algo, isto fica para sempre. E na m\u00fasica temos de respeitar os gostos, nunca ter a pretens\u00e3o de agradar a todos. Ali\u00e1s, n\u00f3s trabalhamos para aqueles que gostam, sempre. Quem entende de m\u00fasica vai gostar de Funanight. Mas a m\u00fasica tamb\u00e9m \u00e9 feita para quem n\u00e3o entende. O gosto \u00e9 muito pessoal e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma sabedoria para contrariar o gosto de cada um. Mas tamb\u00e9m quando fazemos uma coisa, n\u00f3s n\u00e3o fazemos para ser inovadora, isso \u00e9 uma consequ\u00eancia. \u00c0s vezes fazemos para ser assim, e n\u00e3o sai. Eu simplesmente gravei um disco. E gravei como eu penso e como eu sinto a m\u00fasica, a partir da minha postura na m\u00fasica. Gosto de ser rigoroso com as letras, gosto de deixar que as melodias venham das estrelas, que a inspira\u00e7\u00e3o venha do c\u00e9u, que as coisas aconte\u00e7am, e misturar com a terra. E pode ser que resulte, e pode ser que n\u00e3o resulte. Neste caso, resultou. O disco est\u00e1 a\u00ed com toda a sua exig\u00eancia est\u00e9tica, mas j\u00e1 est\u00e1 na rua, na periferia, nas r\u00e1dios, e isso \u00e9 uma grande alegria, uma grande satisfa\u00e7\u00e3o. Entretanto, devemos ter sempre a postura que se alguma coisa \u00e9 nova, \u00e9 porque n\u00e3o \u00e9 banal, se alguma coisa \u00e9 nova, \u00e9 nova em rela\u00e7\u00e3o ao tempo e est\u00e1 \u00e0 frente do que os outros esperam. E se est\u00e1 \u00e0 frente n\u00e3o devemos esperar o aplauso na \u00e9poca. Os aplausos at\u00e9 vir\u00e3o muito tempo depois, esta \u00e9 a sina de ser criativo ou de ser inovador. N\u00e3o devemos esperar que, sendo inovador, se esgote no tempo em que n\u00f3s o lan\u00e7amos, \u00e0s vezes leva tempo para ser compreendido, mas pela compreens\u00e3o que Funanight j\u00e1 tem no momento atual j\u00e1 estou feliz. E o que me anima mais \u00e9 que a compreens\u00e3o que j\u00e1 tem n\u00e3o esgota o que l\u00e1 est\u00e1. Pode ser ouvido durante muitos anos. Ali\u00e1s, eu diria que 50% do disco ainda n\u00e3o foi visto, a surpresa est\u00e1 a\u00ed. Na est\u00e9tica do disco, da capa, e isso faz com que a pessoa tenha uma obra de arte, crie uma rela\u00e7\u00e3o com esta e a guarde durante muito tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rio L\u00facio Sousa est\u00e1 de volta aos discos com Funanight, ap\u00f3s cinco anos de interregno em que foi ministro da Cultura. 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