{"id":12057,"date":"2019-07-07T15:03:43","date_gmt":"2019-07-07T15:03:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.revistabinter.com\/?p=12057\/"},"modified":"2024-01-25T09:23:00","modified_gmt":"2024-01-25T09:23:00","slug":"cachupa-aos-pes-do-big-ben","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/2019\/07\/07\/cachupa-aos-pes-do-big-ben\/","title":{"rendered":"Cachupa aos p\u00e9s do Big Ben"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><span lang=\"pt-PT\">Por <\/span><span lang=\"pt-PT\"><i>Juan Manuel Pardellas<\/i><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span lang=\"pt-PT\">Fotograf\u00edas por<\/span><span lang=\"pt-PT\"><i> Juan \u00c1lvaro<\/i><\/span><\/p>\n<p><span lang=\"pt-PT\">Como cada primeiro s\u00e1bado do m\u00eas, um grupo de minorcas cor caf\u00e9, de cabelo encaracolado, corre sem parar ao p\u00e9 de uma bandeira de Cabo Verde, sob o olhar atento de Alda Lopes e Jonas da Silva. As paredes brancas do local comunit\u00e1rio em Miltons Gardens Community Hall enchem-se de bandeiras de Cabo Verde, fotografias de espet\u00e1culos anteriores, de morna, furan\u00e1 e de artistas populares destas ilhas do atl\u00e2ntico africano. Um projetor ligado a um PC lan\u00e7a imagens dum jogo de futebol dos Tubar\u00f5es, enquanto se ouve furan\u00e1 a abrir. Tr\u00eas mesas compridas, dispostas em forma de um grande U, re\u00fanem o grupo dos convidados. \u00c9 uma pequena representa\u00e7\u00e3o da comunidade cabo-verdiana em Londres, quem nasceu nalguma das dez ilhas ou em qualquer lugar da Europa e da Am\u00e9rica, mas de pais ou av\u00f3s cabo-verdianos. Contam-se mais de 4.000 em todo o Reino Unido, mas pensa-se que realmente sejam muitos mais.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12058\" src=\"http:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/AF_IMG_3439.jpg\" alt=\"\" width=\"4032\" height=\"3024\" srcset=\"https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/AF_IMG_3439.jpg 4032w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/AF_IMG_3439-323x242.jpg 323w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/AF_IMG_3439-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/AF_IMG_3439-750x563.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 4032px) 100vw, 4032px\" \/><\/p>\n<p><span lang=\"pt-PT\">A pr\u00f3pria Alda Lopes nasceu em Angola, de pais de Santiago e Brava. Como coordenadora desta casa de Cabo Verde em Londres tenta promover a cultura de seu pa\u00eds entre os seus, para conservar os la\u00e7os com a terra de origem mas, sobretudo, para a divulgar entre outras comunidades brit\u00e2nicas, europeias ou mundiais. \u201cEnquanto os nossos filhos estiverem aqui n\u00e3o estar\u00e3o pelas ruas a fazer outras coisas\u201d, confidencia-me num canto, longe da m\u00fasica e do rebuli\u00e7o dos que j\u00e1 enchem o sal\u00e3o e degustam produtos locais como cachupa, biscoito de banana e cuscuz. \u201cAquilo [Cabo Verde] \u00e9 muito mais tranquilo, as coisas v\u00e3o a um ritmo mais lento, com mais alegria\u201d. Com tr\u00eas filhos de 30, 19 e 13 anos, reconhece que \u00e9 muito mais r\u00e1pido e simples encontrar trabalho em Inglaterra, acima de tudo na hotelaria. De facto, j\u00e1 se sente meio cabo-verdiana meio brit\u00e2nica, com casa pr\u00f3pria, trabalho e as crian\u00e7as na escola.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12059\" src=\"http:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/AF_IMG_3445.jpg\" alt=\"\" width=\"3024\" height=\"4032\" srcset=\"https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/AF_IMG_3445.jpg 3024w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/AF_IMG_3445-182x242.jpg 182w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/AF_IMG_3445-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/AF_IMG_3445-750x1000.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 3024px) 100vw, 3024px\" \/><\/p>\n<p><span lang=\"pt-PT\">Vestido com uma camisola e chap\u00e9u com as cores de Cabo Verde, Jonas da Silva, o presidente do grupo, \u00e9 h\u00e1 22 anos condutor dos populares autocarros vermelhos de dois andares. Agora at\u00e9 j\u00e1 \u00e9 formador de novos chauffeurs. Nasceu no Mindelo (S\u00e3o Vicente) e de dois em dois anos volta \u00e0 sua terra, com a mulher e os filhos de 19 e 14 anos. Diz-nos \u201cadoro o clima e personalidade da nossa gente, humildes, am\u00e1veis, sempre com um sorriso na cara\u201d, e tem saudades de uma cerveja Strela bem fresquinha e de peixe na grelha. Mesmo assim, tamb\u00e9m reconhece que, sendo dif\u00edcil deixar a terra em que se nasceu, \u201c\u00e9 mais f\u00e1cil encontrar em Londres um bom trabalho: h\u00e1 mais oportunidades, tamb\u00e9m para os filhos\u201d. A sua liga\u00e7\u00e3o \u00e0s ilhas \u00e9 permanente. Deita a m\u00e3o ao bolso traseiro das cal\u00e7as e mostra, orgulhoso, os bilhetes de avi\u00e3o para o Mindelo, em fevereiro. Nos seus planos de futuro conta-se, sem d\u00favida, \u201creformar-me na minha terra\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span lang=\"pt-PT\">Num canto, isolados, conversam duas amigas adolescentes. Jacil da Silva y Tiffany Fernandes t\u00eam 13 anos, desfrutam de um pequeno prato de cachupa e de umas empadas de carne enquanto conversamos. A primeira diz \u00e0 segunda como as praias da Praia s\u00e3o bonitas. \u201cGosto muito do clima, h\u00e1 sempre sol, da praia, da comida e da cultura\u201d, afirma, orgulhosa mas t\u00edmida. \u201cEu gostava de ir a S\u00e3o Vicente\u201d, adita Tiffany, que n\u00e3o conhece a terra dos seus pais.<\/span><\/p>\n<p><span lang=\"pt-PT\">Numa mesa atr\u00e1s do grande U do pequeno sal\u00e3o central encontra-se uma mulher animada e sorridente, com enorme cabelo encaracolado, preto e brilhante, e um vestido cinzento, simples mas elegante. \u00c9 Sandra Carvalho. Nunca esteve em Cabo Verde, mas fala crioulo. E porqu\u00ea? Aprendeu com os av\u00f3s, na Lisboa de Santa Catarina. Trabalha em Londres como cozinheira num lar de idosos, tem dois filhos e est\u00e1 casada com um cabo-verdiano. Foi uma grande viajante, sempre nas saias de sua m\u00e3e, que a levou, sobretudo, a muitas das ilhas Can\u00e1rias, como Tenerife, Lanzarote, Gran Canaria e La Palma, onde acha que ter\u00e1 sido a \u00fanica ou uma das escassas mulheres mulatas da ilha. \u201cOlhe que ali, nos Los Llanos de Aridane, toda a gente me conhecia como A negra\u201d, e ri-se com gargalhadas contagiantes.<\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-12061\" src=\"http:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/AF_IMG_3471.jpg\" alt=\"\" width=\"3024\" height=\"4032\" srcset=\"https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/AF_IMG_3471.jpg 3024w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/AF_IMG_3471-182x242.jpg 182w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/AF_IMG_3471-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/AF_IMG_3471-750x1000.jpg 750w\" sizes=\"(max-width: 3024px) 100vw, 3024px\" \/><\/p>\n<p><span lang=\"pt-PT\">Neste peda\u00e7o de Cabo Verde em Londres h\u00e1 sempre m\u00fasica ao vivo. Hoje Filomena Lopes, admiradora de Ces\u00e1ria \u00c9vora, Mayra Andrade e Lura, entre outras estrelas do seu pa\u00eds, canta morna e coladera. Filomena esteve primeiro em Portugal, mas j\u00e1 est\u00e1 h\u00e1 22 anos em Londres, com filhos de 17 e 29 anos, trabalhando na Funda\u00e7\u00e3o Delfina, que acolhe artistas vindos de todo o mundo. \u00c9 do Mindelo e a sua fam\u00edlia de Santo Ant\u00e3o. H\u00e1 apenas tr\u00eas meses visitou a sua terra, onde garante que \u201cas pessoas s\u00e3o mais muito calorosas, acolhedoras\u201d. <\/span><\/p>\n<p><span lang=\"pt-PT\">Acompanha-a \u00e0 guitarra, Janichell Santos, engenheiro biot\u00e9cnico de 29 anos. Natural de Santo Ant\u00e3o, passou primeiro por Bragan\u00e7a (Portugal) e todos os anos d\u00e1 uma escapadela \u00e0 sua terra. \u201cConseguir um trabalho \u00e9 a chave\u201d, explica para fazer-me compreender o que o levou a deixar a sua terra. \u201cIsso d\u00e1-te estabilidade financeira, emocional, permite-te criar uma fam\u00edlia e ajudar os teus \u2013 e tudo isso consigo em Londres, por isso estou aqui\u201d.<\/span><\/p>\n<p><a name=\"_GoBack\"><\/a> <span lang=\"pt-PT\">A fria noite londrina e os desertos jardins de Shakespeare Walk nem sonham com o enorme calor que solta este \u00ednfimo universo cabo-verdiano, cheio de vida, m\u00fasica, sabores, s\u00edmbolos e lembran\u00e7as a mais de 5000 quil\u00f3metros da terra que os viu nascer. E assim acontece, desde h\u00e1 4 anos, no primeiro s\u00e1bado de cada m\u00eas, gra\u00e7as ao trabalho volunt\u00e1rio de Alda, Jonas e um grupo de homens e mulheres entusiastas.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Juan Manuel Pardellas Fotograf\u00edas por Juan \u00c1lvaro Como cada primeiro s\u00e1bado do m\u00eas, um grupo de minorcas cor caf\u00e9, de cabelo encaracolado, corre sem parar ao p\u00e9 de uma &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":22,"featured_media":12060,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[735],"tags":[],"wps_subtitle":"Hoje Filomena Lopes, admiradora de Ces\u00e1ria \u00c9vora, Mayra Andrade e Lura, entre outras estrelas do seu pa\u00eds, canta morna e coladera","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12057"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/22"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=12057"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12057\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19162,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/12057\/revisions\/19162"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/12060"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=12057"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=12057"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=12057"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}