{"id":10974,"date":"2018-12-18T08:00:30","date_gmt":"2018-12-18T08:00:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.revistabinter.com\/?p=10974\/"},"modified":"2024-01-25T09:23:00","modified_gmt":"2024-01-25T09:23:00","slug":"marlene-freitas-se-cabo-verde-e-essencial-para-mim-tambem-a-europa-o-e","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/2018\/12\/18\/marlene-freitas-se-cabo-verde-e-essencial-para-mim-tambem-a-europa-o-e\/","title":{"rendered":"Marlene Freitas: \u201cSe Cabo Verde \u00e9 essencial para mim, tamb\u00e9m a Europa o \u00e9\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em>Teresa Sofia Fortes<\/em><\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\">Este ano foi distinguida com o Le\u00e3o de Prata da Bienal de Veneza. \u00c9 o ponto mais alto da sua carreira?<\/span> <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 um momento muito importante e \u00fanico. \u00c9 naturalmente uma honra, raz\u00e3o de celebra\u00e7\u00e3o com a equipa de trabalho, os parceiros que em v\u00e1rios pa\u00edses nos t\u00eam apoiado (teatros, festivais, funda\u00e7\u00f5es&#8230;), os amigos e fam\u00edlia. \u00c9 a distin\u00e7\u00e3o mais importante que recebi, por\u00e9m n\u00e3o realizo este trabalho pensando em distin\u00e7\u00f5es, ou sequer em termos de carreira. Cada projeto \u00e9 um desafio pr\u00f3prio, dado o tema e contexto de apresenta\u00e7\u00e3o (pois cada projeto tem como destinat\u00e1rio inicial um teatro ou festival), e \u00e9 pensado em fun\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, procura falar, atrav\u00e9s de uma linguagem mais emocional que racional, para o p\u00fablico.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\">Almejou conquistar tal distin\u00e7\u00e3o?<\/span> <\/strong><\/p>\n<p>Nem o espet\u00e1culo \u201cBacantes\u201d, que antecede o Le\u00e3o de Veneza, foi pensado em fun\u00e7\u00e3o desta ou de qualquer distin\u00e7\u00e3o, nem os anteriores: \u201cGuintche\u201d, \u201cMarfim\u201d, etc. Os pontos altos de cada nova cria\u00e7\u00e3o s\u00e3o a sua estreia e os ajustamentos que sempre fazemos depois, ou porque o trabalho ainda est\u00e1 incompleto, ou porque h\u00e1 aspectos que s\u00f3 se revelam (ou n\u00e3o) com o contacto com o p\u00fablico. S\u00e3o estes os momentos altos das cria\u00e7\u00f5es e que se v\u00e3o somando e fazendo um percurso, que vai sendo reconhecido por espectadores, programadores, imprensa, e que pode (ou n\u00e3o) ser objeto de distin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>Como foi o processo que conduziu \u00e0 distin\u00e7\u00e3o na Bienal de Veneza? Concorreu, ou foi nomeada por um corpo de especialistas?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>A nomea\u00e7\u00e3o para as distin\u00e7\u00f5es da Bienal de Veneza \u00e9 apresentada a um j\u00fari por conselheiros da Bienal, neste caso pela core\u00f3grafa canadiana e programadora da Bienal de Dan\u00e7a 2018, Marie Chouinard, e este j\u00fari deliberou atribuir-me o Le\u00e3o de Prata.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #000000;\">Tinha alguma expectativa de receber esse pr\u00e9mio?<\/span> <\/strong><\/p>\n<p>Nenhuma! Com muita anteced\u00eancia a Bienal de Veneza programou o espet\u00e1culo \u201cBacantes-prel\u00fadio para uma purga\u201d, o que por si s\u00f3 foi raz\u00e3o de grande alegria, jamais tendo eu a m\u00ednima suspeita de que poderia estar associado um qualquer pr\u00e9mio. Receber um pr\u00e9mio destes \u00e9 sempre uma grande surpresa!<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>O que significa essa distin\u00e7\u00e3o para si?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>O reconhecimento do trabalho que eu, uma equipa numerosa e um conjunto tamb\u00e9m numeroso de parceiros temos vindo a desenvolver.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>J\u00e1 recebeu outros pr\u00e9mios ao longo da sua carreira. Este \u00e9 o mais especial?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Certamente! O Le\u00e3o, o s\u00edmbolo de Veneza, \u00e9 um le\u00e3o com asas, \u00e9 um h\u00edbrido, um animal que parece estar diretamente relacionada com o que fazemos. Por outro lado, neste mesmo ano, a Bienal distinguiu com o Le\u00e3o de Ouro Meg Stuart, e em anos anteriores nomes como Romeo Castelluci ou Christoph Marthaler, grandes nomes da dan\u00e7a e teatro contempor\u00e2neo, que muito admiro.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>Em 2017 foi distinguida pelo governo de Cabo Verde pelas suas realiza\u00e7\u00f5es culturais. Como acolheu esta distin\u00e7\u00e3o, tendo em conta que n\u00e3o reside no pa\u00eds, n\u00e3o trabalha e muito raramente faz espet\u00e1culos por l\u00e1?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que n\u00e3o tenho apresentado com regularidade o meu trabalho em Cabo Verde, mas mais por dificuldades na obten\u00e7\u00e3o de recursos para o fazer \u2013 o que na \u00e1rea da dan\u00e7a \u00e9 um desafio -, do que por falta de empenho ou vontade. O que \u00e9 facto \u00e9 que sou cabo-verdiana, quando n\u00e3o estou a trabalhar \u00e9 para aqui que venho e sempre que me apresento no estrangeiro sinto que levo o nome de Cabo Verde. O espet\u00e1culo que agora levamos a Cabo Verde, \u201cDe marfim e carne &#8211; as est\u00e1tuas tamb\u00e9m sofrem\u201d, foi programado antes do Le\u00e3o, e esperemos que no futuro outros possam chegar a Cabo Verde.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>M\u00fasicos e cantores cabo-verdianos que vivem fora de Cabo Verde v\u00e3o frequentemente ao pa\u00eds fazer espet\u00e1culos. Na sua opini\u00e3o, porque \u00e9 que isso n\u00e3o acontece com os bailarinos, nomeadamente consigo, que \u00e9 j\u00e1 uma bailarina consagrada?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Talvez porque a m\u00fasica atrai mais audi\u00eancia do que a dan\u00e7a e a economia da m\u00fasica \u00e9 mais uma economia de mercado que institucional. Tamb\u00e9m a circula\u00e7\u00e3o da m\u00fasica \u00e9 mais f\u00e1cil, atrav\u00e9s dos CDs, pela r\u00e1dio, internet, TV, etc. Com o teatro e dan\u00e7a, em parte com as artes visuais, as coisas passam-se de forma diferente, pois a r\u00e1dio, a TV e a internet permitem apenas um vislumbre muito distante do que \u00e9 a experi\u00eancia nestes meios. Naturalmente, a experi\u00eancia das artes performativas e tamb\u00e9m visuais (salvo certas propostas na fotografia, que passam bem atrav\u00e9s da edi\u00e7\u00e3o) exige um espa\u00e7o, meios t\u00e9cnicos, teatros, or\u00e7amentos que permitam correr riscos. Em alguns casos as apostas ganham-se, noutros n\u00e3o, tudo passa pela continuidade, pela constru\u00e7\u00e3o de uma mem\u00f3ria, pelo h\u00e1bito e pela cr\u00edtica, o que tem que levar tempo, exige um trabalho continuado, apoio continuado, etc. Constato que alguma coisa se vai fazendo, como \u00e9 o caso do Mindeljazz &#8211; festival a que tenho tido a possibilidade de assistir nas minhas desloca\u00e7\u00f5es a Cabo Verde -, o Mindelact e certamente outros. Mas \u00e9 preciso investimento, continuidade e arrojo para assumir riscos.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>Faltar\u00e1 cultura de dan\u00e7a aos cabo-verdianos e \u00e0s entidades p\u00fablicas respons\u00e1veis pelo sector da cultura?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>N\u00e3o diria que o mais importante seja apoiar a dan\u00e7a, ou o teatro, ou o cinema, uma ou outra \u00e1rea art\u00edstica. O mais importante \u00e9 mesmo investir nas artes como o lugar em que se desafiam estere\u00f3tipos (culturais, sociais, pol\u00edticos&#8230;), em que se alarga o horizonte dos poss\u00edveis, da pluralidade, da inova\u00e7\u00e3o, da imagina\u00e7\u00e3o, da revela\u00e7\u00e3o e remodela\u00e7\u00e3o dos inconscientes coletivos e individuais, e por esta via tornar-nos-emos melhores cidad\u00e3os, mais preparados para descodificar a cultura e sociedade contempor\u00e2neas, os artistas estar\u00e3o mais habilitados a intervir com sucesso na cena internacional, etc. Claro que isto pode passar pela dan\u00e7a \u2013 eu e muitos podemos contribuir &#8211; e pode ou deve mesmo passar pelas principais disciplinas art\u00edsticas (teatro, dan\u00e7a, artes pl\u00e1sticas&#8230;), pois \u00e9 aqui que \u00e9 preciso criar mais m\u00fasculos. S\u00e3o estes os desafios mais importantes.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>O que falta para os cabo-verdianos verem, sentirem e viverem a dan\u00e7a como acontece com a m\u00fasica, por exemplo?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Falta movimento, possibilidade de comparar, falta choque, possibilidade de criar rela\u00e7\u00f5es, quantidade, para se chegar \u00e0 qualidade. \u00c9 preciso que nos movamos entre coisas d\u00edspares para percebermos para onde a nossa aten\u00e7\u00e3o se dirige, a nossa barriga aperta, as m\u00e3os ficam mais quentes, o cora\u00e7\u00e3o bate mais forte. As artes n\u00e3o s\u00e3o o dom\u00ednio de uma linguagem, a demonstra\u00e7\u00e3o desse dom\u00ednio, mas o lugar da intensidade, que est\u00e1 para al\u00e9m da linguagem. O que me parece que faz falta \u00e9, por um lado, apoiar produ\u00e7\u00f5es que se proponham abrir novos horizontes, para al\u00e9m dos caminhos percorridos, das mensagens deste ou daquele tipo. Por outro, \u00e9 preciso apoiar a programa\u00e7\u00e3o de espet\u00e1culos em espa\u00e7os, institui\u00e7\u00f5es, teatros, mesmo que num primeiro momento se inicie com a apresenta\u00e7\u00e3o de pequenos formatos, por exemplo solos, para num segundo momento arriscar trabalhos um pouco maiores e assim por diante. \u00c9 preciso dar a possibilidade de que quem est\u00e1 no pa\u00eds possa confrontar-se com o que se faz fora (por exemplo, em Portugal h\u00e1 os chamados \u201capoios \u00e0 internacionaliza\u00e7\u00e3o\u201d, que s\u00e3o uma boa ideia). \u00c9 necess\u00e1rio que as institui\u00e7\u00f5es em Cabo Verde possam ter algum or\u00e7amento para participar em redes internacionais, recebendo e levando espet\u00e1culos do\/ao exterior. A falta de or\u00e7amento \u00e9 um obst\u00e1culo, \u00e9 um facto, mas por vezes parece-me que isto afeta mais as artes do espet\u00e1culo do que a m\u00fasica. Creio que muitos artistas da m\u00fasica recebem cachets quando atuam em Cabo Verde, situa\u00e7\u00e3o que \u00e9 preciso tamb\u00e9m generalizar ao teatro e \u00e0 dan\u00e7a; \u00e9 preciso equil\u00edbrio em rela\u00e7\u00e3o ao que se gasta nos diversos dom\u00ednios. \u00c9 ainda preciso investir para captar recursos exteriores e assim trazer a Cabo Verde trabalhos com interesse estrat\u00e9gico. Por exemplo, o \u201cDe marfim e carne &#8211; as est\u00e1tuas tamb\u00e9m sofrem\u201d ter\u00e1 apresenta\u00e7\u00e3o no Mindelact 2018, gra\u00e7as a uma componente de investimento do festival, mas sobretudo ao apoio da Dire\u00e7\u00e3o-Geral das Artes de Portugal, para o que \u00e9 necess\u00e1rio, atempadamente, cativar o investimento nacional, cumprir os requisitos da candidatura, etc. Isto implica uma componente de investimento nacional e previs\u00e3o, planeamento, organiza\u00e7\u00e3o. Nem sempre resulta, mas \u00e9 necess\u00e1rio insistir, pois de outra forma perdem-se oportunidades \u00fanicas. Quando vivia em Cabo Verde, at\u00e9 aos meus 18 anos, havia uma din\u00e2mica de dan\u00e7a muito grande, principalmente em S\u00e3o Vicente, as pessoas iam ver espet\u00e1culos de dan\u00e7a, uma vez ou outra havia um workshop, etc. Porque \u00e9 que isso n\u00e3o acontece hoje? O que \u00e9 que aconteceu? \u00c9 preciso colocar estas quest\u00f5es.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>Os Raiz di Polon s\u00e3o h\u00e1 duas d\u00e9cadas, pelo menos, o grande e talvez \u00fanico grupo que tem conseguido fazer carreira. N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o em Cabo Verde para mais do que uma estrela?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Isso quer dizer que a dan\u00e7a e talvez as artes no geral precisam de mais aten\u00e7\u00e3o por parte do Estado. Aten\u00e7\u00e3o significa duas coisas: or\u00e7amento e vis\u00e3o. Pensar em termos de estrelato ou de uma \u00fanica estrela faz pouco sentido. Se olharmos com aten\u00e7\u00e3o para o c\u00e9u, as estrelas n\u00e3o existem sozinhas, est\u00e3o sempre em conjunto, formam constela\u00e7\u00f5es, umas brilham mais no inverno, outras no ver\u00e3o, a sua intensidade vai-se modificando. \u00c9 preciso fazer um trabalho mais de base, de cultura da diversidade e da multiplicidade, ou seja, diversidade de institui\u00e7\u00f5es com or\u00e7amentos est\u00e1veis que programam mas tamb\u00e9m apoiam a cria\u00e7\u00e3o e um sistema de concursos p\u00fablicos de apoio \u00e0 cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica. N\u00e3o \u00e9 para amanh\u00e3, mas \u00e9 preciso ir trilhando o caminho.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>Em 2017, a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) atribuiu \u00e0 sua cria\u00e7\u00e3o \u201cJaguar\u201d o pr\u00eamio de melhor coreografia. Foi o primeiro pr\u00e9mio que recebeu como core\u00f3grafa?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Sim. Em 2017 o \u201cDe marfim e carne\u201d foi nomeado, mas n\u00e3o ganhou, em 2018 o mesmo aconteceu com as \u201cBacantes\u201c. Em 2017 foi o \u201cJaguar\u201d que ganhou.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>Que import\u00e2ncia tem para si ser premiada como core\u00f3grafa?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Os pr\u00e9mios s\u00e3o celebrados, mas n\u00e3o s\u00e3o os pr\u00e9mios que definem a minha e nossa rela\u00e7\u00e3o com o trabalho.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>J\u00e1 coreografou v\u00e1rias pe\u00e7as. A \u00faltima \u00e9 \u201cCanine Jaun\u00e2tre 3\u201d, feita para a Batsheva Dance Company. Fale-nos um pouco dessa pe\u00e7a.<\/strong><\/span><\/p>\n<p>\u00c9 uma mistura entre um estaleiro de constru\u00e7\u00e3o e uma campo de jogos em que duas equipas, constitu\u00eddas por figurinhas de Lego, se defrontam, por vezes sem qualquer nexo, por vezes violentamente, ou com muita do\u00e7ura. Tem um lado muito infantil, como quando as crian\u00e7as querem um brinquedo que n\u00e3o lhes pertence e fazem de tudo para o conseguirem, mentem, fazem de conta, agridem, fazem birra, destroem; h\u00e1 a presen\u00e7a constante da constru\u00e7\u00e3o e destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Estreou em Maio de 2017, em Jerusal\u00e9m, e logo a seguir em Tel Aviv. Depois esteve em Amsterd\u00e3o e Montpellier. Tratou-se de uma coprodu\u00e7\u00e3o internacional (modelo que me parece necess\u00e1rio cultivar em Cabo Verde&#8230;).<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>Qual vai ser o percurso desta pe\u00e7a?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>\u00c9 a primeira pe\u00e7a que realizo para uma companhia terceira. Nestes casos quem se ocupa da difus\u00e3o \u00e9 essa companhia, n\u00e3o as pessoas que fazem a difus\u00e3o dos trabalhos da equipa que em cada caso re\u00fano. Portanto, n\u00e3o sei bem o que \u00e9 que se passa em termos de programa\u00e7\u00e3o desta pe\u00e7a. Mas os Batsheva s\u00e3o uma companhia com uma proje\u00e7\u00e3o internacional muito importante, portanto cremos e esperamos que seja apresentado em v\u00e1rios s\u00edtios. Penso que haja interesse de Lisboa e do Porto para 2020&#8230;<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>As suas pe\u00e7as levantam sempre quest\u00f5es de cunho existencial. Porqu\u00ea? Sente-se permanentemente a questionar a sua exist\u00eancia ou a exist\u00eancia humana?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Parto de materiais e ideias muito concretas e simples, que v\u00e3o sendo combinadas de toda a maneira e feitio (excepto talvez na sua tradu\u00e7\u00e3o mais \u00f3bvia), trabalhadas de forma igualmente concreta e simples. Prosseguindo por esta via, normalmente chegamos a formas finais complexas, plurais, h\u00edbridas, sem um sentido claro, abrindo para uma multiplicidade de possibilidades de interpreta\u00e7\u00e3o. \u00c9 como um sonho (cujas partes constituintes normalmente s\u00e3o simples, ou mesmo triviais, mas numa ordem, espacial e temporal, emocionante ou inquietante). Assim, \u00e9 natural que o p\u00fablico veja sentidos e experimente sensa\u00e7\u00f5es muito diversificadas. O espet\u00e1culo \u00e9 o resultante do que acontece em cena, que \u00e9 sempre algo muito trabalhado por n\u00f3s, e a pr\u00f3pria imagina\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, que em absoluto nos escapa. Um misto de um trabalho rigoroso mas aberto para com a imagina\u00e7\u00e3o do p\u00fablico pode estar na base desse sentimento de que qualquer coisa de essencial da condi\u00e7\u00e3o humana est\u00e1 em jogo.<\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><strong>A exist\u00eancia dos cabo-verdianos que vivem fora de Cabo Verde \u00e9 muito marcada pelo desejo e pelos planos de regressar um dia ao pa\u00eds para viver. Inclui-se nesse rol de cabo-verdianos?<\/strong><\/span><\/p>\n<p>Eu gosto muito de Cabo Verde, do espa\u00e7o f\u00edsico e de tudo o que isso traz consigo, as pessoas, a m\u00fasica, a forma de estar e ver a vida; tenho a\u00ed a minha fam\u00edlia mais pr\u00f3xima, m\u00e3e, irm\u00e3, sobrinhas, etc. No m\u00ednimo regresso a Cabo Verde uma vez por ano, por uma genu\u00edna saudade. Mas se n\u00e3o prescindo de Cabo Verde, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que n\u00e3o posso prescindir do meu trabalho, com uma equipa que inclui portugueses, franceses, alem\u00e3es, pessoas com outras origens, um trabalho que requer que estejamos juntos numa sala de ensaios com meios t\u00e9cnicos e que as pessoas sejam pagas, condi\u00e7\u00f5es estas, entre outras, que s\u00e3o sobretudo as institui\u00e7\u00f5es europeias a poder proporcionar. Tamb\u00e9m n\u00e3o posso prescindir disto, pois estes meios s\u00e3o essenciais para atingir resultados como o \u201cMarfim\u201d, \u201cBacantes\u201d, etc. Se Cabo Verde \u00e9 essencial para mim, tamb\u00e9m a Europa o \u00e9. N\u00e3o \u00e9 preciso decidir se um \u00e9 mais que o outro, pois ambos s\u00e3o importantes. Por\u00e9m, \u00e9 certo que eu gostaria de desenvolver trabalho art\u00edstico com maior regularidade com e em Cabo Verde\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Teresa Sofia Fortes Este ano foi distinguida com o Le\u00e3o de Prata da Bienal de Veneza. \u00c9 o ponto mais alto da sua carreira? \u00c9 um momento muito importante e &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":22,"featured_media":10975,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[735],"tags":[],"wps_subtitle":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10974"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/22"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10974"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10974\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10976,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10974\/revisions\/10976"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10975"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10974"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10974"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10974"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}