{"id":10595,"date":"2018-10-25T09:12:50","date_gmt":"2018-10-25T09:12:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.revistabinter.com\/?p=10595\/"},"modified":"2024-01-25T09:23:01","modified_gmt":"2024-01-25T09:23:01","slug":"a-cidade-dos-crocodilos-pode-se-visitar-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/2018\/10\/25\/a-cidade-dos-crocodilos-pode-se-visitar-2\/","title":{"rendered":"A cidade dos crocodilos pode-se visitar"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><em><strong>Mar\u00eda Rodr\u00edguez \/ Bamako<\/strong><\/em><\/p>\n<p>As colinas que a atravessam d\u00e3o-lhe um toque verde e pitoresco, e o rio N\u00edger, que a atravessa, d\u00e1-lhe vida. Tem ruas em terra batida e estradas principais que se enchem de ve\u00edculos a qualquer hora do dia. Carros, motos, bicicletas, carro\u00e7as e burros partilham o asfalto, ao redor do qual lojas a c\u00e9u aberto vendem camisas, sapatos em segunda m\u00e3o, malas, frutas, legumes, \u00f3culos de sol, baldes e outros utens\u00edlios. Os pr\u00e9dios t\u00eam um ar descuidado. H\u00e1 gente por todo o lado. E cordeiros, e vacas. Mas parece que os locais gerem perfeitamente esse caos aparente. A l\u00edngua mais ouvida \u00e9 o bambara, misturado com o franc\u00eas, o idioma que o pa\u00eds adquiriu durante a coloniza\u00e7\u00e3o francesa. Os odores v\u00e1rios, desde apelativos quando se trata de comida a desagrad\u00e1veis nas zonas de \u00e1guas paradas e res\u00edduos de um sistema de saneamento b\u00e1sico muito question\u00e1vel.<\/p>\n<p>Esta breve descri\u00e7\u00e3o pertence \u00e0 cidade de Bamako, a capital do Mali. Desde 2012 ouve-se o seu nome junto a palavras como \u2018inseguran\u00e7a\u2019, \u2018jihadismo\u2019 e \u2018guerra\u2019, devido \u00e0 crise que sofre o pa\u00eds desde ent\u00e3o. Mas antes disso, para entender que era o Mali bastava dizer palavras como \u2018Ali Farka Tour\u00e9\u2019 ou \u2018Tombuctu\u2019 e o interlocutor soltava logo um \u2018ahh!\u2019 com que parecia ter encontrado este pa\u00eds no seu mapa mental.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10598\" src=\"http:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/IMG_3155.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/IMG_3155.jpg 640w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/IMG_3155-361x242.jpg 361w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>Ainda que o Mali inspire terror devido \u00e0 informa\u00e7\u00e3o negativa que passa a imprensa, certo \u00e9 que Bamako pode ser visitada tomando medidas de precau\u00e7\u00e3o, como evitar zonas frequentadas por ocidentais, sobretudo ao fim de semana. O Mali foi durante muito tempo um fabuloso destino tur\u00edstico: Djen\u00e9, o Pa\u00eds Dog\u00f3n ou Tombuktu eram os lugares preferidos dos visitantes. Todos se encontram no norte do pa\u00eds, logo \u00e9 imposs\u00edvel visit\u00e1-los. N\u00e3o obstante, como Bamako era o primeiro passo da viagem at\u00e9 estes s\u00edtios, a cidade est\u00e1 equipada para acolher qualquer estrageiro e adaptar-se ao seu bolso.<\/p>\n<p>Bamako n\u00e3o \u00e9 uma daquelas cidades que ou se ama ou se odeia. Pode ser amada e odiada em simult\u00e2neo, e este sentimento contradit\u00f3rio, partilhado por tanta gente, \u00e9 o que a torna especial. \u00c9 uma cidade que d\u00e1 vontade de rever, por um qualquer motivo inexplic\u00e1vel. \u00c9 acolhedora pelas suas gentes, pela magia do rio N\u00edger que a divide em duas e a une por tr\u00eas pontes. Mas \u00e9 tamb\u00e9m asfixiante, sobretudo por causa dos fumos e do p\u00f3 produzidos nos engarrafamentos, principalmente ao fim da tarde, quando todos voltam para casa.<\/p>\n<p>A capital do Mali est\u00e1 a crescer t\u00e3o depressa que est\u00e3o constantemente a aparecer novos edif\u00edcios aqui e acol\u00e1. Se o crescimento demogr\u00e1fico m\u00e9dio de todo o pa\u00eds se cifra em 3,6%, em Bamako ascende a 6%. Na capital h\u00e1 mais oportunidades de encontrar um trabalho que nas zonas rurais e noutras cidades do pa\u00eds. O n\u00famero de ve\u00edculos aumenta exponencialmente e muitos cidad\u00e3os advertem para a necessidade de mais uma ou duas pontes para atravessar a cidade. Para evitar o tr\u00e2nsito muitos preferem passar por ruelas cheias de lombas em terra batida. E, al\u00e9m das estradas, encontrar casa converte-se numa maratona de paci\u00eancia. Mas que pode esperar da cidade um viajante?<\/p>\n<p>Comecemos com as apresenta\u00e7\u00f5es formais, pelo nome. \u201cBamako\u201d adv\u00e9m de duas palavras do b\u00e1mbara, a l\u00edngua maiorit\u00e1ria no Mali, \u201cbama\u201d e \u201cko\u201d, que se poderia traduzir como \u201cmarisma dos crocodilos\u201d. Por isso a cidade \u00e9 conhecida como a cidade dos crocodilos. Como o Mali, que significa hipop\u00f3tamo, \u00e9 conhecido como o pa\u00eds dos hipop\u00f3tamos. Por\u00e9m, tal n\u00e3o significa que o turista se depare com crocodilos ou hipop\u00f3tamos na capital, mas demonstra sim a import\u00e2ncia do rio N\u00edger, que atravessa boa parte do Mali e em que, noutras partes do pa\u00eds, estes animais podem ser vistos.<\/p>\n<p>A cidade foi fundada no s\u00e9culo XVI \u00e0 volta do rio, mas era ent\u00e3o apenas uma pequena aldeia. Teve tr\u00eas fam\u00edlias fundadoras: os Niar\u00e9, os Tour\u00e9 e os Drav\u00e9. \u00c0 primeira vista pode parecer um pormenor hist\u00f3rico sem mais relev\u00e2ncia que um fait divers. No entanto, os descendentes destas tr\u00eas fam\u00edlias continuam, por tradi\u00e7\u00e3o, a ser consultados nas decis\u00f5es mais importantes de interesse p\u00fablico. Se quando os colonizadores franceses chegaram a Bamako, em 1883, a cidade n\u00e3o contava com mais de 600 habitantes, hoje em dia a sua popula\u00e7\u00e3o \u00e9 de 3 milh\u00f5es de pessoas e conta com mais de sessenta bairros.<\/p>\n<p>O turismo nas cidades africanas \u00e9 diferente do que se realiza nas cidades europeias. Na Europa a tend\u00eancia ser\u00e1 visitar monumentos, lugares hist\u00f3ricos e at\u00e9 fazer um roteiro gastron\u00f3mico. Recomendar uma visita a Bamako pelos seus monumentos at\u00e9 pode soar a rid\u00edculo. O que se procura em Bamako \u00e9 derrubar os estere\u00f3tipos relativamente ao continente africano e conhecer o <em>outro<\/em>. Visitando a cidade de olhos bem abertos, com curiosidade e com a predisposi\u00e7\u00e3o certa, as surpresas est\u00e3o garantidas.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o quer dizer que Bamako n\u00e3o tenha monumentos. Pelo contr\u00e1rio, h\u00e1-os \u00e0s dezenas, fazendo alus\u00e3o a personagens e momentos hist\u00f3ricos do Mali e de \u00c1frica e a s\u00edmbolos da cidade e do pa\u00eds. O hipop\u00f3tamo, o elefante, a Torre de \u00c1frica, a est\u00e1tua de Kwam\u00e9 N&#8217;Krumah ou de Modibo Keita, o monumento da Independ\u00eancia ou o da Paz, s\u00e3o alguns dos que podemos encontrar ao longo das avenidas da cidade, de ambos os lados do rio. Costumam estar sobretudo nas rotundas, pelo que os vamos descobrindo \u00e0 medida que nos deslocamos na cidade.<\/p>\n<p>Para desloca\u00e7\u00f5es em Bamako h\u00e1 dois principais meios de transporte. Por um lado, temos as sotramas, umas desconchavadas furgonetas de cor verde erva, preparadas para acolher uma vintena de pessoas, mas onde costumam caber mais algumas. Os pre\u00e7os variam de acordo com o trajeto e est\u00e3o entre os 150 francos CFA (22 c\u00eantimos de euro) e os 300 CFA (45 c\u00eantimos de euro), quando se vai at\u00e9 \u00e0 periferia da cidade.<\/p>\n<p>A outra op\u00e7\u00e3o, mais c\u00f3moda mas menos emocionante, s\u00e3o os t\u00e1xis. De cor amarela, tamb\u00e9m s\u00e3o normalmente carros velhos, sem ar condicionado, onde por vezes as janelas n\u00e3o sobem ou descem e que, al\u00e9m disso, s\u00e3o manipuladas com uma \u00fanica manivela por viatura, que tem de ser pedida ao condutor. Os pre\u00e7os variam entre 1.000 francos CFA (1,52\u20ac) e 3.000 CFA (4,57\u20ac) segundo o destino. \u00c9 melhor perguntar primeiro aos locais, para ter uma ideia e poder regatear o pre\u00e7o, fixando-o antes de entrar no carro.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-10596\" src=\"http:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/IMG_3178.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" srcset=\"https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/IMG_3178.jpg 640w, https:\/\/www.revistabinter.com\/wp-content\/uploads\/2018\/10\/IMG_3178-361x242.jpg 361w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p>O prazer de conhecer Bamako \u00e9 descobrir as suas gentes, o interc\u00e2mbio cultural onde se apreciam as diferen\u00e7as e as semelhan\u00e7as. Nesta cidade unem-se tradi\u00e7\u00e3o e modernidade, o meio rural e o meio urbano, a montanha e o rio, pescadores e agricultores e, devido ao \u00eaxodo rural, podemos encontrar pessoas de todas as etnias e partes do Mali que conhecem o melhor do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Bastam a predisposi\u00e7\u00e3o adequada, um sorriso e respeito para ser recebido por habitante de Bamako com toda a hospitalidade que estiver ao seu alcance. \u2018I ni sogoma\u2019, para dizer bom dia. \u2018I n\u2019i til\u00e9\u2019, para o meio-dia. \u2018I n\u2019i wula\u2019, para boa tarde. Y \u2018I n\u2019i su\u2019, para a noite. Se for um pouco confuso podemos come\u00e7ar por \u2018I ni ch\u00e9\u2019 que serve tanto para saudar como para agradecer, e \u2018kamb\u00e9\u2019 para as despedidas.<\/p>\n<p>Bamako oferece muitas atividades culturais. Teatro, m\u00fasica, dan\u00e7a, exposi\u00e7\u00f5es\u2026 e porque n\u00e3o um filme no cinema Babemba? Ou dar um passeio no rio em piroga ou pelo parque bot\u00e2nico que se encontra junto ao Zoo e ao Museu Nacional. E at\u00e9 assistir a uma corrida de cavalos no hip\u00f3dromo situado no bairro que lhe d\u00e1 o nome, ou ver um jogo de futebol num dos quatro est\u00e1dios da cidade. Tamb\u00e9m podemos visitar a esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria, constru\u00edda nos tempos coloniais, o mercado grande (<em>Grand March\u00e9<\/em>), a casa dos artes\u00e3os (<em>La Maison des Artisans), <\/em>o mercado de N\u2019Golonina, a Grande Mesquita ou a Catedral. Sim, porque apesar de 90% da popula\u00e7\u00e3o do Mali ser mu\u00e7ulmana, h\u00e1 no pa\u00eds espa\u00e7o para as minorias religiosas.<\/p>\n<p>Bamako \u00e9 uma cidade onde tudo \u00e9 poss\u00edvel e as situa\u00e7\u00f5es em que um turista se pode encontrar ao percorr\u00ea-la, a p\u00e9 ou de carro, convertem-se em snapshots inesquec\u00edveis. Uma mulher que carrega na cabe\u00e7a, com um equil\u00edbrio inato, um enorme barril de mercadorias enquanto leva o seu beb\u00e9 atado \u00e0s costas. Dois jovens que fazem mil malabarismos para poder transportar de moto uma porta. Outro que circula, tamb\u00e9m de moto, no interior de um pneu, para melhor o transportar. E, quando pensava j\u00e1 ter visto tudo, uma furgoneta com v\u00e1rios jovens, por cujas janelas se assomam duas hienas, vivas e tudo!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mar\u00eda Rodr\u00edguez \/ Bamako As colinas que a atravessam d\u00e3o-lhe um toque verde e pitoresco, e o rio N\u00edger, que a atravessa, d\u00e1-lhe vida. Tem ruas em terra batida e &#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":22,"featured_media":10597,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[739],"tags":[],"wps_subtitle":"","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10595"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/22"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=10595"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10595\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":10599,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/10595\/revisions\/10599"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/10597"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=10595"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=10595"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.revistabinter.com\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=10595"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}