Por Juan José Ramos Melo

Em janeiro de 1832 chegou ao largo de Cabo Verde um dos viajantes mais distintos na história das ilhas. A bordo do H. M. S. Beagle, um navio britânico comandado pelo capitão FitzRoy, veio Charles Darwin, naturalista britânico considerado o pai do pensamento moderno, autor da teoria da evolução das espécies e de inúmeros artigos científicos. Desembarcou na ilha de Santiago, após uma tentativa de visitar a ilha de Tenerife, frustrada pelas autoridades locais que não lho permitiram por medo de um possível surto de cólera transmitido pela tripulação, já que na época a Inglaterra sofria com o flagelo continuado desta doença.

A ilha de Santiago e a sua rica diversidade geológica e biológica motivaram as primeiras questões sobre a origem e evolução das espécies de plantas e animais que habitam o nosso planeta. As rochas vulcânicas, os fósseis, os animais e a forma da vegetação permitiram-lhe descobrir, na sua curta estada de cerca de 20 dias, formas de vida muito diferentes das que o jovem naturalista estava habituado a ver nos seus passeios pelos campos britânicos.

Durante a sua estada percorreu parte de Santiago, na companhia de dois oficiais, um padre local e um espanhol, recolhendo algumas amostras, embora a escala não tivesse um objetivo científico. Visitou algumas escoadas lávicas, Ribeira Grande e a baía de Porto Praya, onde ficou fascinado pela geologia do lugar e pela presença de uma acumulação de conchas fósseis de moluscos marinhos longe do mar. Aí teve, pela primeira vez, a ideia de que as rochas brancas que via tinham sido produzidas pela lava de antigas erupções vulcânicas que, ao escorrer para o fundo do mar, teria arrastado conchas e corais triturados e, assim, adquirido uma consistência rochosa.

O arquipélago vulcânico de Cabo Verde foi para Darwin um laboratório natural onde tomou contato com populações de moluscos marinhos da África continental, que ao longo do tempo se transformaram em novas espécies adaptadas às condições locais, diferentes de seus ancestrais. Como resultado desses processos e das características específicas do arquipélago, atualmente existe uma miríade de moluscos exclusivos que continuam a fascinar os viajantes.