Por: Naomi Vera-Cruz

Fotografía por Emily Maye

Ruben Sança é um dos mais bem-sucedidos atletas de Cabo Verde. O maratonista prepara agora a sua participação nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, mas pensa também no seu futuro fora das pistas. Além de uma empresa de treino online de atletas – a Lowell Running Company -, criou a Fundação Sança que, combinando atividades desportivas e educação, espera oferecer oportunidades de um futuro melhor aos jovens de Cabo Verde.

Ruben, aos 32 anos é um atleta que continua de olhos postos nas grandes competições mundiais, nomeadamente nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2020. Como está a correr a preparação para alcançar esta que é a mais desejada de todas as provas?

Atualmente estou treinando para me qualificar para a maratona dos Jogos Olímpicos de Tóquio. A janela de qualificação para os jogos abriu a 1 de janeiro deste ano e encerrará em junho de 2020. Para que eu me qualifique para os JO tenho que executar o tempo necessário. Embora esta competição só aconteça a cada quatro anos, o meu treino continua sendo o mesmo que tem sido durante toda minha carreira. No entanto, a programação das minhas corridas pode mudar para permitir que eu selecione as corridas em que eu acho que tenho as melhores oportunidades de me qualificar para os JO.

É um atleta bolseiro da Solidariedade Olímpica para os Jogos Olímpicos de Tóquio, o que isso significa?

Estou extremamente grato pelo apoio do Comité Olímpico Internacional, fornecendo-me uma bolsa de Solidariedade Olímpica para suportar algumas das despesas do meu treino. A bolsa permite-me viajar para competições, comprar equipamentos, contratar um técnico adequado e pagar serviços médicos ou de emergência. Acredito que mais deste tipo de assistência é necessário não só para mim, mas para outros em Cabo Verde. Dou muito crédito ao Comité Olímpico de Cabo Verde por continuar a fazer grandes esforços na busca de recursos para treinos, conferências e eventos que podem ajudar a desenvolver o desporto em Cabo Verde.

Mas falta ainda mais de 1 ano até os JO 2020. Quais os seus objetivos até lá?

Meu principal objetivo é primeiro chegar aos JO 2020. Não sou candidato a uma medalha, mas acredito que a minha história virá a inspirar muitos futuros atletas cabo-verdianos que, em algum momento, poderão tornar-se candidatos a medalhas. Como país, temos que aprender a dar pequenos passos e estabelecer grandes metas, mas temos que ter paciência. Eu gostaria de bater meu recorde nacional na maratona e elevar o nível para as futuras gerações.

Pretendia participar na Maratona de Dubai, que teve lugar a 25 de janeiro, mas não conseguiu. O que impediu que competisse nessa prova?

Infelizmente, não consegui correr a maratona de Dubai. Devido a um pequeno contratempo no treino tive que mudar o plano de competições, pensando no melhor. Estou bem e treinando duro na esperança de que, em breve, farei uma maratona.

Está já numa faixa etária (32 anos) em que habitualmente os atletas começam a preparar a retirada das pistas. Foi guiado por esta ideia que, em 2016, fundou a empresa de treino online chamada “Lowell Running Company”, nos EUA?

Sim. Logo será o fim da minha carreira competitiva, mas gostaria de continuar envolvido no atletismo. Sou um técnico certificado nos Estados Unidos e recentemente fundei a empresa chamada Lowell Running Company , na cidade de Lowell, onde frequentei a universidade. Somos um grupo de 4 treinadores e, em 2018, já treinámos mais de 100 atletas de todo o mundo por meio do treinamento online de maratona. Temos uma comunidade online onde ajudamos os corredores a aprender sobre a maratona e aconselhamos os atletas que competem ao mais alto nível.

Pretende também ajudar no desenvolvimento da nova geração de atletas em Cabo Verde. Fará isso a partir dos Estados Unidos ou regressará a Cabo Verde?

Ainda não estou completamente certo de para onde o futuro me levará. No entanto, estou aberto a novas oportunidades que possam surgir. Como atleta com 20 anos de experiência já viajei por quase 20 países, conseguindo vários diplomas universitários e certificados e tornando-me fluente em vários idiomas. Acredito por isso que posso ser um grande trunfo para o meu país. Estou disposto a trabalhar de uma forma que possa ajudar o desenvolvimento socioeconómico de Cabo Verde, seja através do desporto ou por outros meios.

Sei também que está a trabalhar na criação de uma organização sem fins lucrativos – a Sança Foundation, Inc – para ajudar crianças em Cabo Verde a encontrar um equilíbrio entre o atletismo e a educação escolar. Como pensa conseguir isso tudo?

A Fundação Sança serve para ajudar as gerações mais jovens de Cabo Verde. Enquanto estudava nos Estados Unidos, pude observar como o desenvolvimento de atividades desportivas para jovens pode provocar mudanças em toda uma comunidade. Acredito que Cabo Verde precisa apostar em iniciativas desportivas e educacionais como meios para o desenvolvimento socioeconómico. Precisamos criar uma nova mentalidade de “atleta-atleta” como forma de dar esperança a nossa juventude. No entanto, percebo que, para que isso aconteça, precisamos de recursos. Precisamos de treinamento para o nosso capital humano, tanto quanto de equipamentos reais tangíveis. Para que tudo isso aconteça, também precisamos das pessoas certas, que liderem a organização no estabelecimento de parcerias, na criação de redes de contactos, em oportunidades de bolsas de estudo de patrocínio e muito mais. Acredito que estou numa posição agora onde posso ser uma grande ajuda para essa visão e sinto que é minha responsabilidade agir.

Esse é o seu maior sonho, ou tem outros tão ou mais ambiciosos?

A Fundação Sança tem uma posição muito alta na minha lista de prioridades. Eu gostaria de ouvir e me conectar com qualquer pessoa que esteja disposta a ajudar, sejam consultores, patrocinadores, colaboradores e as próprias crianças. Eu realmente acho que vamos conseguir algo grande para Cabo Verde através desta fundação e estou muito feliz por estar mostrando o caminho.

Atletas cabo-verdianos têm tido bons resultados nas provas de resistência. Acredita que um dia alcançaremos o ouro nos Jogos Olímpicos?

É realmente difícil dizer isso com total certeza. Acho que às vezes tendemos a subestimar o resto do mundo por não termos o conhecimento adequado. No atletismo temos feito um tremendo progresso em Cabo Verde nos últimos 15 anos. No entanto, acho que ainda há um longo caminho para nós fazemos, pois estamos apenas começando a arranhar a superfície. Temos que mudar a nossa mentalidade sobre o atletismo. Precisamos ensinar os nossos jovens sobre disciplina antes de pedirmos que eles ganhem medalhas. Não podemos continuar a medir o sucesso do atletismo em Cabo Verde simplesmente pela quantidade de medalhas que ganhamos. Esse não é o objetivo principal de nenhum desporto.

Então, não se vê como o atleta que nos dará o ouro olímpico?

Meu objetivo não é ganhar uma medalha. Meu objetivo é inspirar as futuras gerações. Acho que neste momento é o melhor que posso fazer. Treinarei duro? Claro que sim. Vou competir até o final? Absolutamente. No entanto, não vou permitir que o sucesso da minha carreira seja julgado pela quantidade de medalhas que ganhei.