Teresa Sofia Fortes

Este ano foi distinguida com o Leão de Prata da Bienal de Veneza. É o ponto mais alto da sua carreira?

É um momento muito importante e único. É naturalmente uma honra, razão de celebração com a equipa de trabalho, os parceiros que em vários países nos têm apoiado (teatros, festivais, fundações…), os amigos e família. É a distinção mais importante que recebi, porém não realizo este trabalho pensando em distinções, ou sequer em termos de carreira. Cada projeto é um desafio próprio, dado o tema e contexto de apresentação (pois cada projeto tem como destinatário inicial um teatro ou festival), e é pensado em função do público, procura falar, através de uma linguagem mais emocional que racional, para o público.

Almejou conquistar tal distinção?

Nem o espetáculo “Bacantes”, que antecede o Leão de Veneza, foi pensado em função desta ou de qualquer distinção, nem os anteriores: “Guintche”, “Marfim”, etc. Os pontos altos de cada nova criação são a sua estreia e os ajustamentos que sempre fazemos depois, ou porque o trabalho ainda está incompleto, ou porque há aspectos que só se revelam (ou não) com o contacto com o público. São estes os momentos altos das criações e que se vão somando e fazendo um percurso, que vai sendo reconhecido por espectadores, programadores, imprensa, e que pode (ou não) ser objeto de distinção.

Como foi o processo que conduziu à distinção na Bienal de Veneza? Concorreu, ou foi nomeada por um corpo de especialistas?

A nomeação para as distinções da Bienal de Veneza é apresentada a um júri por conselheiros da Bienal, neste caso pela coreógrafa canadiana e programadora da Bienal de Dança 2018, Marie Chouinard, e este júri deliberou atribuir-me o Leão de Prata.

Tinha alguma expectativa de receber esse prémio?

Nenhuma! Com muita antecedência a Bienal de Veneza programou o espetáculo “Bacantes-prelúdio para uma purga”, o que por si só foi razão de grande alegria, jamais tendo eu a mínima suspeita de que poderia estar associado um qualquer prémio. Receber um prémio destes é sempre uma grande surpresa!

O que significa essa distinção para si?

O reconhecimento do trabalho que eu, uma equipa numerosa e um conjunto também numeroso de parceiros temos vindo a desenvolver.

Já recebeu outros prémios ao longo da sua carreira. Este é o mais especial?

Certamente! O Leão, o símbolo de Veneza, é um leão com asas, é um híbrido, um animal que parece estar diretamente relacionada com o que fazemos. Por outro lado, neste mesmo ano, a Bienal distinguiu com o Leão de Ouro Meg Stuart, e em anos anteriores nomes como Romeo Castelluci ou Christoph Marthaler, grandes nomes da dança e teatro contemporâneo, que muito admiro.

Em 2017 foi distinguida pelo governo de Cabo Verde pelas suas realizações culturais. Como acolheu esta distinção, tendo em conta que não reside no país, não trabalha e muito raramente faz espetáculos por lá?

É verdade que não tenho apresentado com regularidade o meu trabalho em Cabo Verde, mas mais por dificuldades na obtenção de recursos para o fazer – o que na área da dança é um desafio -, do que por falta de empenho ou vontade. O que é facto é que sou cabo-verdiana, quando não estou a trabalhar é para aqui que venho e sempre que me apresento no estrangeiro sinto que levo o nome de Cabo Verde. O espetáculo que agora levamos a Cabo Verde, “De marfim e carne – as estátuas também sofrem”, foi programado antes do Leão, e esperemos que no futuro outros possam chegar a Cabo Verde.

Músicos e cantores cabo-verdianos que vivem fora de Cabo Verde vão frequentemente ao país fazer espetáculos. Na sua opinião, porque é que isso não acontece com os bailarinos, nomeadamente consigo, que é já uma bailarina consagrada?

Talvez porque a música atrai mais audiência do que a dança e a economia da música é mais uma economia de mercado que institucional. Também a circulação da música é mais fácil, através dos CDs, pela rádio, internet, TV, etc. Com o teatro e dança, em parte com as artes visuais, as coisas passam-se de forma diferente, pois a rádio, a TV e a internet permitem apenas um vislumbre muito distante do que é a experiência nestes meios. Naturalmente, a experiência das artes performativas e também visuais (salvo certas propostas na fotografia, que passam bem através da edição) exige um espaço, meios técnicos, teatros, orçamentos que permitam correr riscos. Em alguns casos as apostas ganham-se, noutros não, tudo passa pela continuidade, pela construção de uma memória, pelo hábito e pela crítica, o que tem que levar tempo, exige um trabalho continuado, apoio continuado, etc. Constato que alguma coisa se vai fazendo, como é o caso do Mindeljazz – festival a que tenho tido a possibilidade de assistir nas minhas deslocações a Cabo Verde -, o Mindelact e certamente outros. Mas é preciso investimento, continuidade e arrojo para assumir riscos.

Faltará cultura de dança aos cabo-verdianos e às entidades públicas responsáveis pelo sector da cultura?

Não diria que o mais importante seja apoiar a dança, ou o teatro, ou o cinema, uma ou outra área artística. O mais importante é mesmo investir nas artes como o lugar em que se desafiam estereótipos (culturais, sociais, políticos…), em que se alarga o horizonte dos possíveis, da pluralidade, da inovação, da imaginação, da revelação e remodelação dos inconscientes coletivos e individuais, e por esta via tornar-nos-emos melhores cidadãos, mais preparados para descodificar a cultura e sociedade contemporâneas, os artistas estarão mais habilitados a intervir com sucesso na cena internacional, etc. Claro que isto pode passar pela dança – eu e muitos podemos contribuir – e pode ou deve mesmo passar pelas principais disciplinas artísticas (teatro, dança, artes plásticas…), pois é aqui que é preciso criar mais músculos. São estes os desafios mais importantes.

O que falta para os cabo-verdianos verem, sentirem e viverem a dança como acontece com a música, por exemplo?

Falta movimento, possibilidade de comparar, falta choque, possibilidade de criar relações, quantidade, para se chegar à qualidade. É preciso que nos movamos entre coisas díspares para percebermos para onde a nossa atenção se dirige, a nossa barriga aperta, as mãos ficam mais quentes, o coração bate mais forte. As artes não são o domínio de uma linguagem, a demonstração desse domínio, mas o lugar da intensidade, que está para além da linguagem. O que me parece que faz falta é, por um lado, apoiar produções que se proponham abrir novos horizontes, para além dos caminhos percorridos, das mensagens deste ou daquele tipo. Por outro, é preciso apoiar a programação de espetáculos em espaços, instituições, teatros, mesmo que num primeiro momento se inicie com a apresentação de pequenos formatos, por exemplo solos, para num segundo momento arriscar trabalhos um pouco maiores e assim por diante. É preciso dar a possibilidade de que quem está no país possa confrontar-se com o que se faz fora (por exemplo, em Portugal há os chamados “apoios à internacionalização”, que são uma boa ideia). É necessário que as instituições em Cabo Verde possam ter algum orçamento para participar em redes internacionais, recebendo e levando espetáculos do/ao exterior. A falta de orçamento é um obstáculo, é um facto, mas por vezes parece-me que isto afeta mais as artes do espetáculo do que a música. Creio que muitos artistas da música recebem cachets quando atuam em Cabo Verde, situação que é preciso também generalizar ao teatro e à dança; é preciso equilíbrio em relação ao que se gasta nos diversos domínios. É ainda preciso investir para captar recursos exteriores e assim trazer a Cabo Verde trabalhos com interesse estratégico. Por exemplo, o “De marfim e carne – as estátuas também sofrem” terá apresentação no Mindelact 2018, graças a uma componente de investimento do festival, mas sobretudo ao apoio da Direção-Geral das Artes de Portugal, para o que é necessário, atempadamente, cativar o investimento nacional, cumprir os requisitos da candidatura, etc. Isto implica uma componente de investimento nacional e previsão, planeamento, organização. Nem sempre resulta, mas é necessário insistir, pois de outra forma perdem-se oportunidades únicas. Quando vivia em Cabo Verde, até aos meus 18 anos, havia uma dinâmica de dança muito grande, principalmente em São Vicente, as pessoas iam ver espetáculos de dança, uma vez ou outra havia um workshop, etc. Porque é que isso não acontece hoje? O que é que aconteceu? É preciso colocar estas questões.

Os Raiz di Polon são há duas décadas, pelo menos, o grande e talvez único grupo que tem conseguido fazer carreira. Não há espaço em Cabo Verde para mais do que uma estrela?

Isso quer dizer que a dança e talvez as artes no geral precisam de mais atenção por parte do Estado. Atenção significa duas coisas: orçamento e visão. Pensar em termos de estrelato ou de uma única estrela faz pouco sentido. Se olharmos com atenção para o céu, as estrelas não existem sozinhas, estão sempre em conjunto, formam constelações, umas brilham mais no inverno, outras no verão, a sua intensidade vai-se modificando. É preciso fazer um trabalho mais de base, de cultura da diversidade e da multiplicidade, ou seja, diversidade de instituições com orçamentos estáveis que programam mas também apoiam a criação e um sistema de concursos públicos de apoio à criação artística. Não é para amanhã, mas é preciso ir trilhando o caminho.

Em 2017, a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) atribuiu à sua criação “Jaguar” o prêmio de melhor coreografia. Foi o primeiro prémio que recebeu como coreógrafa?

Sim. Em 2017 o “De marfim e carne” foi nomeado, mas não ganhou, em 2018 o mesmo aconteceu com as “Bacantes“. Em 2017 foi o “Jaguar” que ganhou.

Que importância tem para si ser premiada como coreógrafa?

Os prémios são celebrados, mas não são os prémios que definem a minha e nossa relação com o trabalho.

Já coreografou várias peças. A última é “Canine Jaunâtre 3”, feita para a Batsheva Dance Company. Fale-nos um pouco dessa peça.

É uma mistura entre um estaleiro de construção e uma campo de jogos em que duas equipas, constituídas por figurinhas de Lego, se defrontam, por vezes sem qualquer nexo, por vezes violentamente, ou com muita doçura. Tem um lado muito infantil, como quando as crianças querem um brinquedo que não lhes pertence e fazem de tudo para o conseguirem, mentem, fazem de conta, agridem, fazem birra, destroem; há a presença constante da construção e destruição.

Estreou em Maio de 2017, em Jerusalém, e logo a seguir em Tel Aviv. Depois esteve em Amsterdão e Montpellier. Tratou-se de uma coprodução internacional (modelo que me parece necessário cultivar em Cabo Verde…).

Qual vai ser o percurso desta peça?

É a primeira peça que realizo para uma companhia terceira. Nestes casos quem se ocupa da difusão é essa companhia, não as pessoas que fazem a difusão dos trabalhos da equipa que em cada caso reúno. Portanto, não sei bem o que é que se passa em termos de programação desta peça. Mas os Batsheva são uma companhia com uma projeção internacional muito importante, portanto cremos e esperamos que seja apresentado em vários sítios. Penso que haja interesse de Lisboa e do Porto para 2020…

As suas peças levantam sempre questões de cunho existencial. Porquê? Sente-se permanentemente a questionar a sua existência ou a existência humana?

Parto de materiais e ideias muito concretas e simples, que vão sendo combinadas de toda a maneira e feitio (excepto talvez na sua tradução mais óbvia), trabalhadas de forma igualmente concreta e simples. Prosseguindo por esta via, normalmente chegamos a formas finais complexas, plurais, híbridas, sem um sentido claro, abrindo para uma multiplicidade de possibilidades de interpretação. É como um sonho (cujas partes constituintes normalmente são simples, ou mesmo triviais, mas numa ordem, espacial e temporal, emocionante ou inquietante). Assim, é natural que o público veja sentidos e experimente sensações muito diversificadas. O espetáculo é o resultante do que acontece em cena, que é sempre algo muito trabalhado por nós, e a própria imaginação do público, que em absoluto nos escapa. Um misto de um trabalho rigoroso mas aberto para com a imaginação do público pode estar na base desse sentimento de que qualquer coisa de essencial da condição humana está em jogo.

A existência dos cabo-verdianos que vivem fora de Cabo Verde é muito marcada pelo desejo e pelos planos de regressar um dia ao país para viver. Inclui-se nesse rol de cabo-verdianos?

Eu gosto muito de Cabo Verde, do espaço físico e de tudo o que isso traz consigo, as pessoas, a música, a forma de estar e ver a vida; tenho aí a minha família mais próxima, mãe, irmã, sobrinhas, etc. No mínimo regresso a Cabo Verde uma vez por ano, por uma genuína saudade. Mas se não prescindo de Cabo Verde, também é verdade que não posso prescindir do meu trabalho, com uma equipa que inclui portugueses, franceses, alemães, pessoas com outras origens, um trabalho que requer que estejamos juntos numa sala de ensaios com meios técnicos e que as pessoas sejam pagas, condições estas, entre outras, que são sobretudo as instituições europeias a poder proporcionar. Também não posso prescindir disto, pois estes meios são essenciais para atingir resultados como o “Marfim”, “Bacantes”, etc. Se Cabo Verde é essencial para mim, também a Europa o é. Não é preciso decidir se um é mais que o outro, pois ambos são importantes. Porém, é certo que eu gostaria de desenvolver trabalho artístico com maior regularidade com e em Cabo Verde”.