Primeiro através de escritos mitológicos e depois por relatos contemporâneos, os arquipélagos de Cabo Verde e Canárias estão unidos a fogo pelo líquido do oceano e da tinta

Depois das colunas de Hércules, hoje no estreito de Gibraltar, começava a Atlântida. Uma ilha extensa como um continente, descrita por Platão como um paraíso da natureza, com edificações dignas da mais avançada civilização. O filósofo grego garante que este reino existiu e se expandiu até à Grécia, onde a sua avareza foi castigada pelos deuses, que provocaram a sua queda e afundamento. Diz-se que desta ilha gigante apenas restam os seus vestígios, que afloram o Atlântico como um conjunto de arquipélagos chamado Macaronésia, um termo proveniente do grego que significa “ilhas afortunadas”. Desde então rios de tinta uniram Cabo Verde e Canárias, relacionando a sua localização com o Jardim das Hespérides, os Campos Elísios ou com as Ilhas dos Bem-Aventurados, o paraíso que os deuses ofereciam a heróis e virtuosos após a sua morte.

Se, nessa altura, o nexo literário entre ambos os arquipélagos se estabelecia pela fortuna, milhares de anos volvidos estabeleceu-se então pela migração. Canários e cabo-verdianos viram-se obrigados a partir para o mar durante séculos, mas enquanto nas Canárias o fenómeno tinha que ver com a instabilidade económica que começou a assolar as ilhas a partir de 1670, Cabo Verde foi desde a origem concebido como arquipélago de partida, no início por parte de escravos e depois já por migrantes. Porém, é em 1936, ano em que a revista “claridade” vê a luz do dia, que esta realidade começa a ser retratada na literatura cabo-verdiana, até então inexistente. Entre os seus fundadores contam-se Baltasar Lopes e Jorge Barbosa, autores de relatos impregnados pela saudade, esse suspiro que sente tanto quem parte cheio de expectativas quanto quem fica, preso nas incertezas.

Uma ideia também refletida nas obras de autores canários como os irmãos Luis e Agustín Millares Cubas ou Nicolás Estévanez Murphy. Perante o mito generalizado do personagem do índio, estes escritores mostram uma versão afastada daqueles que foram “fazer as américas”, para descrever quem partiu com sonhos de progresso e encontrou sustento, ou quem regressou sem se encontrar na própria terra.

Quando os canários e cabo-verdianos se expressaram na primeira pessoa desvendaram que, além da sua condição comum de ilha ou da sua proximidade geográfica, há um momento na historia em que ambos se podem rever, denotando a sua condição de ilhas útero. Uma marca de identidade insular marcada pela migração, que acarretou a contradição de sentir que não há maior calor que o que em casa se sente e, em simultâneo, sair em busca da vida.