Maria Pereira

Começou a cantar quase que a brincar.

Hoje é a mais recente revelação artística de Cabo Verde.

A morna é a sua paixão. O fado também.

Cremilda confessa nesta entrevista à Binter estar a viver dias de glória, depois de uma travessia nada fácil, devido à sua escolha de cantar um género exigente e clássico.

Cremilda, és a mais recente revelação artística cabo-verdiana. Como é que chegaste até aqui?

Muito sinceramente (…)! Nunca pensei chegar até aqui, ao ponto de ser eleita a Categoria de Melhor Morna dos CVMA e o prémio Sapo Awards pelo segundo ano consecutivo, para o artista mais popular na internet. É muito bom quando as pessoas reconhecem o nosso trabalho. Isso deixa-me feliz e dá-me forças e energia para seguir em frente. Na verdade, há uns anos tudo era diferente: mais barreiras do que facilidades. Cheguei a pensei até em desistir de cantar Mornas, pois concluí que a minha opção não me estava a levar a lado algum. Em Cabo Verde fala-se muito de Mornas mas, na realidade, quem optar por esse género musical não consegue apoios à primeira. Tive imensas promessas que nunca passaram disso mesmo até que, há dois anos, o meu marido decidiu apoiar-me. Foi a partir desse impulso e apoio que acabei por editar o álbum “Folclore”.

Como começaste?

Por brincadeira. Comecei a cantar muito pequenina numa gala de pequenos cantores em São Vicente. Desde aí fiquei a gostar da experiencia, fui participando em alguns eventos culturais para que era convidada. A partir de dada altura, na minha adolescência, comecei a fazer parte do grupo musical juvenil “Rytmos” e mais tarde da banda “Noites de Mindelo”. Foi então que as coisas começaram a ficar mais sérias, pois a visibilidade já começava a crescer um pouco. Seguiu-se depois a participação no programa “Talentu Strela”, na altura transmitido através da Televisão de Cabo Verde, TCV. Com o tempo, fui ganhando alguma experiencia. Nesse mesmo ano, venci o prémio de Melhor Intérprete Feminino na gala ”Mindel Premio”, em São Vicente, o que me deixou extremamente feliz, pois deu-me mais ânimo para seguir a minha carreira.

Desde então, fui caminhando pelos meus próprios pés, sempre com um foco, fazer as coisas com profissionalismo e muita humildade, pois considero serem os dois pilares fundamentais em qualquer coisa que se faça na vida.

A morna é o teu estilo preferido?

Até há algum tempo atrás, tinha grande dificuldade em entender a Morna no seu todo, pois está associada aos sentimentos que mais marcam a vida das pessoas, a morte, a saudade, a alegria, a tristeza, e isso fazia-me muita confusão, cantar a tristeza!

Quando comecei a entender um pouco mais do verdadeiro sentido da Morna percebi que é, de facto, o meu estilo preferido. A Morna para mim representa a identidade do nosso povo, as angústias e anseios de um país. Para mim, a Morna é a voz de Cabo Verde. Faço esta afirmação ciente do respeito que tenho por todos os estilos musicais que temos em Cabo Verde.

Quem compõe as tuas músicas?

As músicas que fazem parte de “Folclore” foram compostas por quem quis fazer parte deste projeto. Graças a Deus, tive e tenho pessoas fantásticas que me cederam as suas composições, isto falando de temas originais. É o caso de Morgadinho, que compôs a música “Sonho dum Criola” especialmente para mim, como também o João Carlos Silva, o Anísio Rodrigues, o Fany de Ano Nobu, o Miguel Silva, o Renato Monteiro, José Eduardo Agualusa e Ricardo Cruz. Depois fui buscar temas de outrora, através de composições de Antero Simas, Paulino Vieira, Manuel d’Novas, Jon Luz e Ti Goi.

Estás neste momento na ribalta, com muitas digressões e muitos prémios pelo meio…

Há coisas em que ainda me custa um pouco a acreditar, pela forma como tudo está a acontecer. É fantástico ter o reconhecimento das pessoas, virem ter contigo a dar-me os parabéns e dizer que estou a fazer um bom trabalho, isso é muito reconfortante. Penso que os prémios que tenho vindo a conseguir são o fruto de estar no mundo da música de uma forma séria, verdadeira e com muita humildade. O meu único interesse é levar a nossa música onde as pessoas quiserem que eu leve.

Em Abril nos Estados Unidos estava nomeada nos IPMA – International Portuguese Music Awards na categoria “Best World Music”. Quando anunciaram o meu nome como sendo a vencedora, não queria acreditar! Sei que ao estarmos nomeados corremos o risco de vencer, mas só o facto de estar nomeada, para mim, já era uma grande vitória.

Por isso, ter vencido a categoria de “Best World Music” fora de Cabo Verde acaba por ser mais sonho realizado.

Nos CVMA – Cabo Verde Music Awards foi igual. Apesar de estar nomeada em 5 categorias e de ter vencido duas delas, confesso que ter vencido a categoria Melhor Morna foi mais um sonho realizado, mais um passo neste meu caminho, ainda para mais no ano em que Cabo Verde entregou na UNESCO a candidatura da Morna a património imaterial da humanidade. Teve um sabor especial.

Isto sem esquecer o prémio Sapo Award que venci pelo segundo ano consecutivo. Tudo isto mostra que as pessoas estão atentas ao trabalho que temos vindo a desenvolver.

Queres falar destes dias de glória?

Têm sido momentos únicos. Desde o lançamento de “Folclore” sinto que as pessoas estão a conhecer aos poucos a verdadeira Cremilda Medina, a minha verdadeira musicalidade.

Como disse, para mim é muito reconfortante ter o reconhecimento do público, poder ouvir as suas opiniões, as suas críticas, até porque sou uma pessoa que gosta de ser criticada para poder corrigir e melhorar sempre mais. Quero melhorar, pois sei que ainda tenho muito para aprender.

Por onde tenho passado as pessoas têm gostado muito, têm cantado comigo as músicas do álbum, o que me deixa ainda mais orgulhosa das nossas tradições, em especial da nossa Morna.

Tens influência artística de quem?

As minhas principais influências são de artistas que interpretam e interpretaram a nossa Morna e o Fado em Portugal.

Digo isto porque, para mim, estes são os dois estilos que mais identificam os dois povos, a Morna em Cabo Verde e o Fado em Portugal.

A entrega de cada um ao interpretar é um dar de si de uma forma pura e genuína, levando muitas das vezes as emoções ao seu extremo.

Lembro-me de em alguns momentos ter de fazer uma pausa porque não consigo conter as lágrimas ao interpretar um tema, pois existem composições que são muito fortes e mexem muito comigo.

Sem dúvida que Cesária Évora, Bana, Ildo Lobo, Morgadinho, Paulino Vieira, Lura, Nancy Vieira, Mariza, Cuca Roseta, Carminho ou Ana Moura são as minhas principais influências. Vejo neles os expoentes da nossa cultura pela forma como interpretaram e interpretam as composições.

Considero que não basta cantar, é necessário interpretar e transmitir esse sentimento em cada composição.

Qual o teu grande sonho.

O meu grande sonho é poder levar a nossa música a todo o mundo e poder também um dia ter uma vida profissional só na música, o que neste momento não é muito fácil. Ser uma artista independente, ainda para mais na música tradicional, faz com que muitas portas não se abram para mim. Tenho a noção disso, mas como costumo dizer vou aproveitando sempre as janelas que se vão abrindo.

És uma artista cabo-verdiana com predileção para o fado. Porquê?

Como digo muitas vezes, eu gosto de vários estilos musicais, gosto de ouvir um bom funaná, uma boa mazurka, uma kizomba, mas a minha predileção é sem dúvida a Morna em Cabo Verde e o Fado em Portugal.

Lembro-me de quando era criança o meu pai ter em casa uns discos da Amália Rodrigues, e foi aí que comecei a ouvir e a gostar do Fado, tanto que neste meu primeiro álbum também gravei um Fado.

Hoje ao ver e ouvir os fadistas, a entrega com que cantam, o sentimento que colocam em cada interpretação fico toda arrepiada.

Este ano tive a oportunidade de ir a uma casa de Fados em Portugal, e foi divinal. Tudo acústico, sem microfones, sem efeitos, a voz pura como ela sai da alma, foi um momento que nunca irei esquecer, até porque foi aí que conheci também a Mariza, para mim uma das melhores intérpretes de Fado da atualidade.