María Rodríguez / Bamako

As colinas que a atravessam dão-lhe um toque verde e pitoresco, e o rio Níger, que a atravessa, dá-lhe vida. Tem ruas em terra batida e estradas principais que se enchem de veículos a qualquer hora do dia. Carros, motos, bicicletas, carroças e burros partilham o asfalto, ao redor do qual lojas a céu aberto vendem camisas, sapatos em segunda mão, malas, frutas, legumes, óculos de sol, baldes e outros utensílios. Os prédios têm um ar descuidado. Há gente por todo o lado. E cordeiros, e vacas. Mas parece que os locais gerem perfeitamente esse caos aparente. A língua mais ouvida é o bambara, misturado com o francês, o idioma que o país adquiriu durante a colonização francesa. Os odores vários, desde apelativos quando se trata de comida a desagradáveis nas zonas de águas paradas e resíduos de um sistema de saneamento básico muito questionável.

Esta breve descrição pertence à cidade de Bamako, a capital do Mali. Desde 2012 ouve-se o seu nome junto a palavras como ‘insegurança’, ‘jihadismo’ e ‘guerra’, devido à crise que sofre o país desde então. Mas antes disso, para entender que era o Mali bastava dizer palavras como ‘Ali Farka Touré’ ou ‘Tombuctu’ e o interlocutor soltava logo um ‘ahh!’ com que parecia ter encontrado este país no seu mapa mental.

Ainda que o Mali inspire terror devido à informação negativa que passa a imprensa, certo é que Bamako pode ser visitada tomando medidas de precaução, como evitar zonas frequentadas por ocidentais, sobretudo ao fim de semana. O Mali foi durante muito tempo um fabuloso destino turístico: Djené, o País Dogón ou Tombuktu eram os lugares preferidos dos visitantes. Todos se encontram no norte do país, logo é impossível visitá-los. Não obstante, como Bamako era o primeiro passo da viagem até estes sítios, a cidade está equipada para acolher qualquer estrageiro e adaptar-se ao seu bolso.

Bamako não é uma daquelas cidades que ou se ama ou se odeia. Pode ser amada e odiada em simultâneo, e este sentimento contraditório, partilhado por tanta gente, é o que a torna especial. É uma cidade que dá vontade de rever, por um qualquer motivo inexplicável. É acolhedora pelas suas gentes, pela magia do rio Níger que a divide em duas e a une por três pontes. Mas é também asfixiante, sobretudo por causa dos fumos e do pó produzidos nos engarrafamentos, principalmente ao fim da tarde, quando todos voltam para casa.

A capital do Mali está a crescer tão depressa que estão constantemente a aparecer novos edifícios aqui e acolá. Se o crescimento demográfico médio de todo o país se cifra em 3,6%, em Bamako ascende a 6%. Na capital há mais oportunidades de encontrar um trabalho que nas zonas rurais e noutras cidades do país. O número de veículos aumenta exponencialmente e muitos cidadãos advertem para a necessidade de mais uma ou duas pontes para atravessar a cidade. Para evitar o trânsito muitos preferem passar por ruelas cheias de lombas em terra batida. E, além das estradas, encontrar casa converte-se numa maratona de paciência. Mas que pode esperar da cidade um viajante?

Comecemos com as apresentações formais, pelo nome. “Bamako” advém de duas palavras do bámbara, a língua maioritária no Mali, “bama” e “ko”, que se poderia traduzir como “marisma dos crocodilos”. Por isso a cidade é conhecida como a cidade dos crocodilos. Como o Mali, que significa hipopótamo, é conhecido como o país dos hipopótamos. Porém, tal não significa que o turista se depare com crocodilos ou hipopótamos na capital, mas demonstra sim a importância do rio Níger, que atravessa boa parte do Mali e em que, noutras partes do país, estes animais podem ser vistos.

A cidade foi fundada no século XVI à volta do rio, mas era então apenas uma pequena aldeia. Teve três famílias fundadoras: os Niaré, os Touré e os Dravé. À primeira vista pode parecer um pormenor histórico sem mais relevância que um fait divers. No entanto, os descendentes destas três famílias continuam, por tradição, a ser consultados nas decisões mais importantes de interesse público. Se quando os colonizadores franceses chegaram a Bamako, em 1883, a cidade não contava com mais de 600 habitantes, hoje em dia a sua população é de 3 milhões de pessoas e conta com mais de sessenta bairros.

O turismo nas cidades africanas é diferente do que se realiza nas cidades europeias. Na Europa a tendência será visitar monumentos, lugares históricos e até fazer um roteiro gastronómico. Recomendar uma visita a Bamako pelos seus monumentos até pode soar a ridículo. O que se procura em Bamako é derrubar os estereótipos relativamente ao continente africano e conhecer o outro. Visitando a cidade de olhos bem abertos, com curiosidade e com a predisposição certa, as surpresas estão garantidas.

Mas isso não quer dizer que Bamako não tenha monumentos. Pelo contrário, há-os às dezenas, fazendo alusão a personagens e momentos históricos do Mali e de África e a símbolos da cidade e do país. O hipopótamo, o elefante, a Torre de África, a estátua de Kwamé N’Krumah ou de Modibo Keita, o monumento da Independência ou o da Paz, são alguns dos que podemos encontrar ao longo das avenidas da cidade, de ambos os lados do rio. Costumam estar sobretudo nas rotundas, pelo que os vamos descobrindo à medida que nos deslocamos na cidade.

Para deslocações em Bamako há dois principais meios de transporte. Por um lado, temos as sotramas, umas desconchavadas furgonetas de cor verde erva, preparadas para acolher uma vintena de pessoas, mas onde costumam caber mais algumas. Os preços variam de acordo com o trajeto e estão entre os 150 francos CFA (22 cêntimos de euro) e os 300 CFA (45 cêntimos de euro), quando se vai até à periferia da cidade.

A outra opção, mais cómoda mas menos emocionante, são os táxis. De cor amarela, também são normalmente carros velhos, sem ar condicionado, onde por vezes as janelas não sobem ou descem e que, além disso, são manipuladas com uma única manivela por viatura, que tem de ser pedida ao condutor. Os preços variam entre 1.000 francos CFA (1,52€) e 3.000 CFA (4,57€) segundo o destino. É melhor perguntar primeiro aos locais, para ter uma ideia e poder regatear o preço, fixando-o antes de entrar no carro.

O prazer de conhecer Bamako é descobrir as suas gentes, o intercâmbio cultural onde se apreciam as diferenças e as semelhanças. Nesta cidade unem-se tradição e modernidade, o meio rural e o meio urbano, a montanha e o rio, pescadores e agricultores e, devido ao êxodo rural, podemos encontrar pessoas de todas as etnias e partes do Mali que conhecem o melhor do país.

Bastam a predisposição adequada, um sorriso e respeito para ser recebido por habitante de Bamako com toda a hospitalidade que estiver ao seu alcance. ‘I ni sogoma’, para dizer bom dia. ‘I n’i tilé’, para o meio-dia. ‘I n’i wula’, para boa tarde. Y ‘I n’i su’, para a noite. Se for um pouco confuso podemos começar por ‘I ni ché’ que serve tanto para saudar como para agradecer, e ‘kambé’ para as despedidas.

Bamako oferece muitas atividades culturais. Teatro, música, dança, exposições… e porque não um filme no cinema Babemba? Ou dar um passeio no rio em piroga ou pelo parque botânico que se encontra junto ao Zoo e ao Museu Nacional. E até assistir a uma corrida de cavalos no hipódromo situado no bairro que lhe dá o nome, ou ver um jogo de futebol num dos quatro estádios da cidade. Também podemos visitar a estação ferroviária, construída nos tempos coloniais, o mercado grande (Grand Marché), a casa dos artesãos (La Maison des Artisans), o mercado de N’Golonina, a Grande Mesquita ou a Catedral. Sim, porque apesar de 90% da população do Mali ser muçulmana, há no país espaço para as minorias religiosas.

Bamako é uma cidade onde tudo é possível e as situações em que um turista se pode encontrar ao percorrê-la, a pé ou de carro, convertem-se em snapshots inesquecíveis. Uma mulher que carrega na cabeça, com um equilíbrio inato, um enorme barril de mercadorias enquanto leva o seu bebé atado às costas. Dois jovens que fazem mil malabarismos para poder transportar de moto uma porta. Outro que circula, também de moto, no interior de um pneu, para melhor o transportar. E, quando pensava já ter visto tudo, uma furgoneta com vários jovens, por cujas janelas se assomam duas hienas, vivas e tudo!