Por Paula Albericio

Junho é o grande mês de La Orotava (na região norte da ilha canária de Tenerife). O Corpus Christi, a dança dos magos, a romaria de San Isidro. Motor económico da ilha no século XVII e atualmente cenário de superproduções de Hollywood, como Fúria de Titãs, La Orotava oferece uma mescla de shopping num centro histórico património nacional, com lojas centenárias, ruas empedradas, antigas mansões e fachadas canárias típicas que distinguem este município que dorme nas encostas do Teide (o vulcão com o pico mais alto da Espanha, 3.718 metros).

Com o Ayuntamiento (Câmara Municipal) como ponto de partida, começamos o nosso percurso na rua Carrera del Escultor Estévez onde, no número 16, encontramos a Ferreteria Orotava, uma empresa familiar fundada em 1904 por Félix Reyes Martín e administrada desde 2004 por Esteban García Morales, que anteriormente era aí empregado. “Temos que adaptar-nos aos tempos modernos, mas sem abdicar do nosso artesanato e tradições”, diz Esteban, enquanto nos mostra o lugar que está localizado abaixo de uma antiga mansão com mais de cem anos. Não só os utensílios domésticos e os produtos de ferragens podem ser encontrados aqui, pois este estabelecimento com mais de um século de história continua a apostar no artesanato, como a cestaria de castanheiro, além de estar ligada a tradições históricas, como a rota de presépios canários ou a confeção de carpetes de Corpus Christi.

Sem sair da mesma rua, no número 11, entramos na Calzados Afonso, estabelecimento familiar fundado em 1904. “Começou como a chapelaria El Águila, aberta pelo meu avô Adolfo López. Viajava à península e a Itália para obter os melhores materiais “, conta-nos Ana Afonso López, da terceira geração a cargo de uma empresa que agora é uma loja de sapatos voltada para os públicos masculino e feminino e cujos clientes vêm de diferentes pontos de toda a ilha de Tenerife. Aqui conservam parte do mobiliário original e o encanto do pequeno comércio, que se distingue pelo tratamento amigável e próximo.

Vir a La Orotava e não desfrutar da pastelaria é quase um pecado. A Confitería y café Taoro, da Casa Egon, na rua León nº 5, é talvez um dos estabelecimentos mais populares do município. Fundada em 1906 pelo alemão Egon Wende Bard, entrar nas suas instalações é fazer uma viagem a outra era. Benigno Rocío, sobrinho da esposa de Egon, herdou este negócio com um pronunciado selo familiar – os seus seis filhos estiveram ligados ao estabelecimento, que remonta já a quatro gerações. Não pode partir sem provar um tambor moka ou chocolate, as roscas de gema ou o mil-folhas crocante acompanhado de um chocolate quente com nata caseira. Se puder, não deixe de contemplar os fabulosos Jardins Victoria, que presidem à parte traseira da casa Egon, cuja imagem certamente que não deixará ninguém indiferente.

Após esta paragem para repor energia, continuamos o passeio e as compras. Entre ruas empedradas e belas fachadas dirigimo-nos para a Sukul, na rua Tomas Zerolo nº1, dirigida por Jesus e Edurne. Esta loja de moda e acessórios para mulheres está localizada dentro de um dos estabelecimentos mais antigos de La Orotova que, embora escondido dos olhos do público, preserva o antigo escritório original com relíquias dignas de admiração. Aqui destacam-se as roupas elaboradas em tecidos ecológicos, o estilo boémio e a bijuteria artesanal, uma delícia para os amantes da moda e das tendências.

Terminamos o dia no nº 14 da rua Calvario, onde se situa o Bar Fariña, fundado em 1920, que foi variando de atividade e passando de geração em geração. Agora, “a filosofia de Fariña é fundir os bares de pinchos típicos de Madrid e do norte da península, onde os clientes se sentam ao balcão para degustar um menu que muda todas as semanas”, diz-nos Óscar Rocío, um dos coproprietários deste negócio que, desde janeiro de 2017, se tornou num ponto de encontro para amigos que acorrem para fruir da gastronomia, da grande variedade de cervejas e da música ao vivo, além das exposições itinerantes que acolhe.

Bar Fariña

E é esse o encanto de La Orotava, ter evoluído sem perder as tradições de outrora